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1 de fevereiro de 2011
a poesia / guillevic
Carnac
fragmentos
1
Mar à beira do nada,
Que se mistura ao nada,
Para melhor saber o céu,
As praias, os rochedos,
Para melhor os receber.
2
Algum dia brincaremos,
Por uma hora que seja,
Nada mais que alguns minutos,
Oceano solene,
Sem que tenhas tu esse ar
De outra coisa te ocupar?
3
Sabes de mais que todos te preferem,
Que mesmo aqueles que te deixaram
Nos trigos te reencontram,
Na erva te procuram,
Na pedra te escutam,
Sem que jamais consigam agarrar-te.
4
Tem qualquer coisa a ver
Com a noção de Deus,
Água que já não és água,
Poder desprovido de mãos e de instrumentos,
Peso sem emprego
Para quem o tempo não existe.
5
Sejamos justos: sem ti
De que me servia o espaço
E as rochas de que serviam?
6
Não temos margens, na verdade,
Nem tu nem eu.
7
Ouve bem o que faz
A pólvora explodindo.
Ouve bem o que faz
O frágil violino.
8
Sei bem que há outros mares,
Mar do pescador,
Mar dos navegadores,
Mar dos marinheiros e guerreiros,
Mar dos que querem morrer no mar.
Não sou um dicionário,
Falo só de nós dois
E quando digo o mar
É sempre o de Carnac.
9
As mesmas terras sempre
A teres de acariciar.
Jamais um corpo novo
Que possas ensaiar.
10
As profundezas, que procuramos,
Serão as tuas?
As nossas têm poder de chama.
11
Demasiado largo
Para ser cavalgado.
Demasiado largo
Para ser estreitado.
E flácido.
12
Se acaso acreditas no valor dos sons
Deves sentir-te arrepiar
Só de ouvir este nome de mar.
13
Tu vais e vens
Mas dentro de limites
Fixados por uma lei
Que não chega a ser tua.
Nós temos em comum
A experiência do muro.
guillevic
carnac (1961)
vozes da poesia europeia III
traduções de david mourão ferreira
colóquio letras 165
fundação calouste gulbenkian
2003
2 de novembro de 2010
a poesia / josé martí
amor de cidade grande
De orgia são e rapidez os tempos.
Corre qual luz a voz; em alta torre
Qual nave despenhada em sirte horrendo,
Some-se o raio, e em ligeira barca
O homem, como alado, fende o ar.
Assim o amor, sem pompa nem mistério,
Morre, logo que nasce, de saciado!
Prisão é a casa de pombas já mortas
E ávidos caçadores! Se tantos peitos
Dos homens se laceram, e as carnes
Rasgadas rolam na terra, não se vêem
Dentro mais que frutos esmagados!
Ama-se em pé, nas ruas, entre a poeira
Dos salões e das praças; agoniza
A flor que nasce. Aquela virgem
Trémula que preferia dar à morte
A mão pura que a um ignorado jovem;
O gozo de temer; aquele sair
Do peito o coração; o inefável
Prazer de merecer; o grato susto
De caminhar depressa e sem desvio
Para a casa da amada, e às suas portas
Como um menino feliz romper em choro;
E o contemplar, de nosso amor ao fogo,
As rosas tingindo-se de cor,
- Serão patranhas? Pois, quem possuirá
Tempo pra ser fidalgo? Embora sinta
Qual áureo vaso ou quadro sumptuoso,
Dama gentil na casa de um magnata!
Ou, se tem sede, estende o seu braço
E a taça que passa a bebe toda!
Depois, a taça turva no pó rola,
E o hábil provador – manchado o peito
Por um sangue invisível – segue alegre,
Coroado de mirtos, seu caminho!
Não são os corpos já, mas só resíduos,
E campas e farrapos! E as almas
Não são como na árvore frutos ricos
Em cuja pele macia o suco doce
Transborda quando ficam bem maduros.
- Mas fruta à venda que com brutais pancadas
O rude lavrador torna madura!
Esta é a era dos lábios ressequidos!
Das noites só de insónia! De uma vida
Esmagada antes do tempo! O que nos falta
Que a ventura não existe? Como lebre
Assustada, o espírito esconde-se,
Fugindo trémulo ao caçador que ri,
Como em bosque selvoso, em nosso peito;
E o desejo, enlaçado na febre,
Qual rico caçador percorre o bosque.
Assusta-me a cidade! Que está cheia
De taças por esvaziar, ou taças ocas!
Tenho medo, ai de mim!, que este meu vinho
Seja peçonha, e em minhas veias logo
Qual duende vingador os dentes crave!
Tenho sede, - mas de um vinho que na terra
Ninguém sabe beber! Não padeci
Bastante ainda para derrubar o muro
Que me separa, oh dor, do meu vinhedo!
Bebei vós, mesquinhos provadores
De humanos vinhos fracos, esses copos
Onde o suco do lírio em grandes goles
Sem compaixão e sem temor se bebe!
Bebei! Eu sou honrado e tenho medo!
josé martí
tradução de josé bento
nova renascença
número 60/63 vol. XVI
fundação eng. antónio de almeida
1996
24 de agosto de 2010
a poesia / ângela marques
circulares
I
Vem, que os sinos não tocaram
e ainda fez pouco tempo desde que me vesti de orquídeas,
sinto a folha nítida à flor da pele
e tenho o corpo entorpecido da chuva.
Isto não é medo dos barcos, mas antes um olhar arrefecido
por um momento de silêncio são horas de voltarmos ao cais azulado
e fazermos as despedidas de verdade.
Vem, que te encontrarei em qualquer pedaço de rua,
ou nos poços que povoam a cidade: é de ti que falarei
a vida inteira até quando abrir o jornal e encontrar um velho a sorrir,
hão-de subir-me as lágrimas ao pescoço e correrei à aldeia de terra batida,
no caminho levo águas e umbrais para que as gaivotas se não sintam sós:
então será um desfiar de rosários eternos,
como o choro de minha mãe. Quando chegar
todos estarão em fila com os olhos pregados no horizonte
(será inútil lembrar-lhes os heróis antigos)
à espera dos meus sonhos que ouviram contar.
É por isso que as casas são de granito
e a lenha não chega para tantas ilusões.
Terei que ir devagar e pensar na janela que ficou do lado das sombras,
terei que resolver as entranhas dos mortos para descobrir uma rosa
terei que fechar a porta com cabelos loiros
e então dizer-lhes
que não tenho mãos.
É quando os homens vão gritar pelos espelhos
e as mulheres ajoelhar frente ao sol,
mesmo assim conseguirei rodear-me de tojo,
fingir que tenho o mar ali ao virar das cruzes,
que os amigos não me abandonaram.
Será supremo o trigo quente e o sabor dos frutos
como se tivesse comigo um homem para afagar os olhos, ou então chorar.
Viverei das cores que me arrepiam os sentidos
porque isso bastará para curar cicatrizes, a face esfregá-la-ei com urtigas
para que os lábios não tenham tempo de secar.
Com a maior das solenidades cairei por terra:
— que me atirem ao vento para poder finalmente voar
e amar sem grilhetas nos gestos
Mas a primavera ainda não voltou,
Vem, que tenho muitas viagens por fazer.
Porto, 1980
II
havia um combóio de ti que me levava
de veneza a paris
partia todas as noites de um cais azul
quando me reencontrava com fotografias velhas
e pedaços de jornal esquecidos no banco de jardim
reconheci o teu nome mesmo que a música
não trouxesse rastos de perfume da beira
onde os rostos te ficaram tão na memória
debruço-me sobre os teus olhos até
o vento me devolver às águas
e ao fundo há uma catedral de velas
que se confundem no horizonte
assim te leio postais molhados
enquanto procuras o cheiro de roupa lavada
e um pedaço de sol em cima da cómoda
descubro que são nossas as gotas de mar
penduradas naquela janela verde quando
o riso nos vem aos lábios
o rio atravessa infinitamente este barco
podemos abrir as mãos de ternura
afastar as cortinas da solidão
e acenarmos à i1ha do sul
amanhã chegaremos aí
Porto, 8-11-81
III
ir à praia beber poemas
como se os meus olhos fossem estufas
onde repousam as lembranças todas
desde as aves mais remotas
até ao murmúrio da água
assim como subir as escadas de um sorriso e perder-me
nas ruas molhadas do quartier Iatin
Não sei porquê mas havia soldados
e fontes iluminadas de crianças
havia saxofones ambulantes
e lágrimas escondidas na soleira da porta
e eu — amor — encontrei um corrimão direito e châtelet
quando me despenteava pelos bares
foi assim por mais que queiras
que me afoguei naquela manhã de abril.
agora procuro as margens da ternura
onde encontre o teu rio
e fecharei os poemas:
Bonjour!
Porto, 31-5-81
IV
era assim todas as manhãs
quando me levantei do sena tinha
as mãos presas no lençol sob a ponte
tal e qual eram as pernas. que
me havias enlaçado de véspera
tudo porque já não há um sul quente
nos meus braços e
as gaivotas viajaram até mim.
não sei se estavas louco à minha espera
ou se então tinhas perdido o último métro
não sei se o café arrefeceu enquanto voltei ao mar
ou se então foi o sorriso que se esfumou nos teus cabelos
E ainda me restam poeiras da primavera
quando escrevo e não tenho um travesseiro
que me baste ao arrepio de uma corda abandonada.
e tu sabes que aqui as guitarras se abrem comigo
depois são anos e anos de melancolia onde
as aves negras se misturam aos barcos.
Mas ouve:
volto sempre a Saint-Germain-des-Prés
como uma fotografia desbotada,
sorrio de passagem ao Jean-Pierre
e tocarei à campainha
Porto, 21-7-81
V
vi uma menina com um sorriso de amêndoa
e foi como se voltasse a perder-me nas ruas da catedral
era grande a vontade de acenar
e erguer as velas, passo a passo,
até ao mais profundo dos teus olhos
é que as manhãs sabem a mel se quiseres
encontrar um amigo também
todas as águas se revolvem de dor
quando de repente voltam as costas ao sol
mas depois é muito doce o caminho da ternura
que está sempre na melodia de um gesto
assim perdido entre as luzes
mais vezes te mostrarei como são belas as palavras
vistas do cimo de um monte
enquanto vestimos um moinho de feno e cal
o sabor das portas viradas a sul
e no fim de tudo o supremo prazer
de duas mãos que mergulham na luz
Orléans, 30-10-82
VI
preciso de trazer o sol à superfície dos teus lábios
como quem faz uma festa com as palavras
preciso de um barco a roçar-me os olhos
todas as manhãs para que não se apaguem as velas
na praia. assim me visto de azul e te acendo os sentidos
enquanto um menino à beira rio espalha sorrisos pela cidade.
São estes os tempos de cal que perduram nos meus dedos
para além dos livros e no entanto
nem todas as árvores são de mel
Por aqui basta-me ouvir cânticos de água
nos portais esverdeados e depois
virão cavalos para me despentearem o corpo
agora restam as cicatrizes dos pássaros
com toda a nitidez trago na memória
os dias imprecisos em que te conheci
Eram de trigo como a terra que escolhi
e calmos e enormes
Porto, 24-1-82
VII
é em manhãs de domingo
assim vazias
quando um olhar me prende do lado de fora da vitrina
a lembrar a frescura de paris nos meus braços
que me deixo afundar até às histórias de natal
e choro como aqui escrevo
lembro rostos e mãos coloridas
não sei já onde é este café depravado
pergunto de novo porque subi até agora
Depois disto não sei se restarão horas para pintar no pescoço
ou então algum ombro para repousar estas palavras
desconheço os fios que me envolvem de nomes
assim como pessoas que me encontram nas esquinas
duma cidade fantasma dos tempos antigos
quando se fala no intervalo dum cigarro é como se
o combóio estivesse para partir e não há um cais
que nos espere muito tempo
estar aqui ou numa secretária donde se vêem as antenas amontoadas
é-me igual para ver os suicidas pendurados numa lâmpada de quarenta
ou a1agados no sangue em cima de uma colcha de renda
entretanto partem os barcos e os combóios e os aviões
e eu fico do lado de cá da vitrina
à espera de um olhar que me leve algures
Porto, 20-12-81
VIII
a casa que sonhei era branca, muito rente ao chão,
e as janelas de madeira amparavam-me os sonhos,
traziam histórias estranhas e levavam-me pelo mundo:
corria de lyon a paris, passava por veneza
para lembrar aquele degrau onde me sentei feliz
e voltava à mesa com a toalha posta de linho
una malga de leite
um naco de pão
o teu sorriso quente
a festa começava quando as mãos se encontravam
e partiam a descobrir os recantos de nós
a viagem era louca até ao chão
os corpos rolavam envolvidos em água
até que o teu cheiro se vertia pelo soalho
era tudo tão simples na casa que sonhei!
Porto, 5-4-85
IX
deixar-me escorregar lentamente pela música
largar os gestos carregados de pedras
abandonar as rugas do tempo
como quando o sol era o único amante
e descobrir o silêncio nos cânticos de morte
é sublime e imensa
a catedral onde repouso de mãos rentes à terra.
o resto eram ilusões.
Porto, 4/5-4-85
X
a cidade revestiu-se de uma bruma de gaivotas
e os gritos fundiram-se em labaredas com
as minhas lágrimas de peixe solitário
foram dias e dias de tempestade
quando as rochas se quebraram a prumo
vieram nuvens de todo o universo
juntaram-se em prece e as velas nas igrejas
vergaram-se perante as vagas
tudo imenso vazio
nem os sorrisos cabiam aqui
e muito menos o azul de outrora
até um dia…
Porto, 3-3-85
ângela marques
circulares
nova renascença
abril/junho
primavera de 1985
23 de dezembro de 2009
a poesia / josé miguel silva
um
Cai um sino do pinheiro de natal.
Por muito menos se foge de casa
de seus pais. Agachados sob o leque
das hortênsias, descobrimos que as lágrimas
são fáceis de engolir. Sem saber,
já chegamos ao escuro.
Só nos falta pôr o til na palavra solidão.
josé miguel silva
vista para um pátio seguido de desordem
relógio d´água
2003
27 de junho de 2009
a poesia / t. s. eliot
burnt norton
I
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.
O que podia ter sido é uma abstracção
Permanecendo possibilidade perpétua
Apenas num mundo de especulação.
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
Ecoam passos na memória
Ao longo do corredor que não seguimos
Em direcção à porta que nuca abrimos
Para o roseiral. As minhas palavras ecoam
Assim, no teu espírito.
Mas para quê
Perturbar a poeira numa taça de folhas de rosa
Não sei.
Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisíveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente, contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
III
Este é um lugar de desafeição
O tempo antes e o tempo depois
Numa luz sombria: nem luz do dia
Investindo a forma de lúcida quietude
Transformando a sombra em efémera beleza
Com vagarosa rotação sugerindo permanência
Nem escuridão para purificar a alma
Esvaziando o sensual pela privação
Purificando a afeição do temporal.
Nem plenitude nem vazio. Apenas um tremeluzir
Sobre os rostos tensos devastados pelo tempo
Distraídos da distracção pela distracção
Cheios de fantasias e vazios de sentido
Túmida apatia sem concentração
Homens e pedaços de papel remoinhando no vento frio
Que sopra antes e depois do tempo,
Vento que entra e sai de pulmões viciados
Tempo antes e tempo depois.
Eructação de almas doentias
No ar desbotada, os miasmas
Levados no vento que varre os sombrios montes de Londres,
Hampstead e Clerkenwell, Campden e Putney,
Highgate, Primrose e Ludgate. Não aqui
Não aqui a escuridão, neste mundo de agitadas vozes.
Desce mais, desce apenas
Ao mundo da solidão perpétua,
Mundo não mundo, mas aquilo que não é mundo,
Escuridão interna, privação
E destituição de toda a propriedade,
Dissecação do mundo do sentido,
Evacuação do mundo da fantasia,
Inoperância do mundo do espírio;
Este é um dos caminhos, e o outro
É o mesmo, não em movimento
Mas abstenção de movimento; enquanto o mundo se move
Em apetência, nos seus caminhos metalizados
Do tempo passado e do tempo futuro.
V
As palavras movem-se, a música move-se
Apenas no tempo; mas o que apenas vive
Apenas pode morrer. As palavras, depois de ditas,
Alcançam o silêncio. Apenas pela forma, pelo molde,
Podem as palavras ou a música alcançar
O repouso, tal como uma jarra chinesa ainda
Se move perpetuamente no seu repouso.
Não o repouso do violino, enquanto a nota dura,
Não isso apenas, mas a coexistência,
Ou digamos que o fim precede o princípio,
E que o fim e o princípio estiveram sempre ali
Antes do princípio e depois do fim.
E tudo é sempre agora, As palavras deformam-se,
Estalam e quebram-se por vezes, sob o fardo,
Sob a tensão, escorregam, deslizam, perecem,
Definham com imprecisão, não se mantêm,
Não ficam em repouso. Vozes estridentes
Ralhando, troçando, ou apenas tagarelando,
Assaltam-nas sempre. O Verbo no deserto
É muito atacado por vozes de tentação,
A sombra que chora na dança funérea,
O clamoroso lamento da quimera desconsolada.
O detalhe do molde é movimento,
Como na figura dos dez degraus.
O próprio desejo é movimento
Não desejável em si;
O próprio amor é inamovível,
Apenas a causa e o fim do movimento,
Intemporal, e sem desejo
Excepto no aspecto do tempo
Capturado sob a forma de limitação
Entre o não ser e o ser.
De repente num raio de sol
Mesmo enquanto se move a poeira
Eleva-se o riso escondido
De crianças na folhagem
Depressa, aqui, agora, sempre -
Ridículo o triste tempo inútil
Que se estende antes e depois.
t.s. eliot
quatro quartetos
tradução de maria amélia neto
edições ática
1983
8 de abril de 2009
a poesia / herberto helder
lugar II
Há sempre uma noite terrível para quem se despede
do esquecimento. Para quem sai,
ainda louco de sono, do meio
do silêncio. Uma noite
ingénua para quem canta.
Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou
que varre as pedras da cabeça.
Que mexe na língua a cinza desprendida.
E alguém me pede: canta.
Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio:
canta até te mudares em cão azul,
ou estrela electrocutada, ou em homem
nocturno. Eu penso
também que cantaria para além das portas até
raízes de chuva onde peixes
cor de vinho se alimentam
de raios, seixos límpidos.
Até à manhã orçando
pedúnculos e gotas ou teias que balançam
contra o hálito.
Até à noite que retumba sobre as pedreiras.
Canta - dizem em mim - até ficares
como um dia órfão contornado
por todos os estremecimentos.
E eu cantarei transformando-me em campo
de cinza transtornada.
Em dedicatória sangrenta.
Há em cada instante uma noite sacrificada
ao pavor e à alegria.
Embatente com suas morosas trevas.
Desde o princípio, uma onde que se abre
no corpo, degraus e degraus de uma onda.
E alaga as mãos que brilham e brilham.
Digo que amaria o interior da minha canção,
seus tubos de som quente e soturno.
Há uma roda de dedos no ar.
A língua flamejante.
Noite, uma inextinguível
inexprimível
noite. Uma noite máxima pelo pensamento.
Pela voz entre as águas tão verdes do sono.
Antiguidade que se transfigura, ladeada
por gestos ocupados no lume.
Pedem tanto a quem ama: pedem
o amor. Ainda pedem
a solidão e a loucura.
Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria.
E eles querem dizer: tu darás a tua existência
ardida, a pura mortalidade.
Às mulheres amadas darei as pedras voantes,
uma a uma, os pára-
-raios abertíssimos da voz.
As raízes afogadas do nascimento. Darei o sono
onde um copo fala
fusiforme
batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro.
Dá-nos tua ardente e sombria transformação.
E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes,
lentamente uma sobre a outra.
Quando se esclarecem as portas que rodam
para o lugar da noite tremendamente
clara. Noite de uma voz
humana. De uma acumulação
atrasada e sufocante.
Há sempre sempre uma ilusão abismada
numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo
do cruzamento do fogo.
Prodígio para as vozes de uma vida repentina.
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama
sentam-se e dizem:
ama-nos. E ele ama-as.
Desaperta uma veia, começa a delirar, vê
dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado
pela vida quimérica das pedras.
Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas.
Ele arranca os dedos armados pelo fogo
e oferece-os à noite fabulosa.
Ilumina de tantos dedos
a cândida variedade das mulheres amadas.
E se ele acorda, então dizem-lhe
que durma e sonhe.
E ele morre e passa de um dia para outro.
Inspira os dias, leva os dias
para o meio da eternidade, e Deus ajuda
a amarga beleza desses dias.
Até que Deus é destruído pelo extremo exercício
da beleza.
Porque não haverá paz para aquele que ama.
Seu ofício é incendiar povoações, roubar
e matar,
e alegrar o mundo, e aterrorizar,
e queimar os lugares reticentes deste mundo.
Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio
da noite aparecente,
votar a vida à interna fonte dos povos.
Deve instaurar o corpo e subi-lo,
lanço a lanço,
cantando leve e profundo.
Com as feridas.
Com todas as flores hipnotizadas.
Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas
abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas
pedras. Sobre o interior
da respiração com sua massa
de apagadas estrelas. Noite alargada
e terrível terrível noite para uma voz
se libertar. Para uma voz dura,
uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.
Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som.
E se as mulheres colocam os dedos sobre
a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante,
ele não deve ser como o maior violino.
Ele será o único único violino
Porque nele começará a música dos violinos gerais
e acabará a inovação cantada.
Porque aquele que ama nasce e morre.
Vive nele o fim espalhado da terra.
herberto helder
lugar (poema II)
poesia toda
assírio & alvim
1981
18 de março de 2009
a poesia / david mourão ferreira
Ternura
Desvio dos teus ombros o lençol
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do Sol,
quando depois do Sol não vem mais nada...
Olho a roupa no chão: que tempestade!
há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
em que uma tempestade sobreveio...
Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...
Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!
david mourão ferreira
infinito pessoal ou a arte de amar
guimarães editores
1962
11 de fevereiro de 2009
a poesia / sílvia ugidos
Traçado urbanístico
Tal como qualquer cidade
também nós escondemos
turvos itinerários, edifícios arruinados,
escuras vielas de rancor ou desejo,
arrabaldes de medo ou parques para o amor,
cantos em penumbra onde ocultar segredos,
praças que nunca visitamos
e aborrecidos museus onde expor lembranças
que não interessam a ninguém.
A nós
também nos habitam cidadãos terríveis:
funcionários do tédio,
mensageiros de moto levando para muito longe
o pequeno embrulho — primoroso e com laço —
dos remorsos.
Viajantes que passam por nós
com as suas malas a caminho de outros corpos
e sobretudo
transeuntes alheios à nossa própria vontade,
incivis e teimosos;
têm nomes ridículos
tal como os sentimentos amor, rancor ou medo
e especulam — como vulgares comerciantes —
com o preço
por metro quadrado do nosso coração.
sílvia ugidos
poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000
8 de janeiro de 2009
a poesia / harold pinter
Poema
Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.
Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.
harold pinter
várias vozes
tradução jorge silva melo e francisco frazão
quasi
2006
16 de dezembro de 2008
a poesia / jean cocteau
.
.
.

O pacote vermelho
O meu sangue transformou-se em tinta. Era preciso impedir a todo o custo essa nojeira. Estou envenenado até aos ossos. Cantava no escuro, e agora é o canto o que me mete medo. Mais ainda: estou leproso. Sabem daquelas manchas de humidade que parecem um perfil? Não sei que encanto da lepra engana o mundo e o autoriza a beijar-me. Pior para ele! As consequências não me dizem respeito. Nunca exibi senão chagas. Fala-se de graciosa fantasia: a culpa é minha. É loucura alguém exibir-se inutilmente.
A minha desordem empilha-se até ao céu. Os que eu amei existiam pendurados do céu por um elástico. Voltasse eu a cabeça... e já lá não estavam.
De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia......, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.
Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos.
Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade.
jean cocteau
poesia do século xx
(de thomas hardy a c. v. cattaneo)
antologia e tradução de jorge de sena
editorial inova
1978
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O pacote vermelho
O meu sangue transformou-se em tinta. Era preciso impedir a todo o custo essa nojeira. Estou envenenado até aos ossos. Cantava no escuro, e agora é o canto o que me mete medo. Mais ainda: estou leproso. Sabem daquelas manchas de humidade que parecem um perfil? Não sei que encanto da lepra engana o mundo e o autoriza a beijar-me. Pior para ele! As consequências não me dizem respeito. Nunca exibi senão chagas. Fala-se de graciosa fantasia: a culpa é minha. É loucura alguém exibir-se inutilmente.
A minha desordem empilha-se até ao céu. Os que eu amei existiam pendurados do céu por um elástico. Voltasse eu a cabeça... e já lá não estavam.
De manhã, debruço-me, debruço-me, e deixo-me cair. Caio de fadiga, de dor, de sono. Sou inculto, nulo. Não sei um número, uma data, um nome de rio, uma língua, viva ou morta. Tenho zero em geografia e em história. Se não fossem uns passes de mágica, corriam comigo. Além do mais, roubei os documentos a um tal J.C., nascido em M.L., no dia......, e que morreu com dezoito anos, depois de uma brilhante carreira poética.
Esta cabeleira, este sistema nervoso, mal implantados, esta França, esta terra, não me pertencem. Dão-me agonias. Sempre os dispo à noite, em sonhos.
Pois aqui largo o pacote. Que me fechem num hospício, que me linchem. Quem puder que entenda. Eu sou uma mentira que diz sempre a verdade.
jean cocteau
poesia do século xx
(de thomas hardy a c. v. cattaneo)
antologia e tradução de jorge de sena
editorial inova
1978
21 de novembro de 2008
a poesia / hélène monette
Cálculo integral
Quantas noites há neste planeta?
quanta paz na escuridão
de luz na sabedoria?
Quantos mortos até à morte?
Quanto?
Quantos passos traçaram
com os vossos pés, com as vossas mãos
quantas notas ligaram
quantas vozes enlaçaram
neste deserto sem fim?
Quanto amor há no vosso amor
vós que traçais na areia
os esquemas dos vossos conhecimentos
os teoremas do esplendor
a fórmula infalível da existência?
Quantas noites há na vossa vida?
Quantos oceanos no vosso corpo?
Quantas ilhas moram
no arquipélago atlântido da vossa alma?
Quantas velas nos vossos olhos
e o fogo
onde o puseram?
No léxico das vagas?
Na gramática do céu
hoje tão enevoado?
Quantos rodeios e convenções
quantas indecisões fratricidas
por princípio, em teoria
quantas vozes entorpecidas
no capítulo do coração?
Quanto amor no silêncio impossível deste planeta?
Que fizeram de tudo isso
por entre as ditaduras físicas
zombarias animais
extravios de suburbanos
entre os intelectos arrefecidos
e as comédias fraternais?
Que fizeram do vosso amor?
Que fizeram das vossa vida?
que disseram?
Quantos ramos de flores esmagados nas vossas mãos?
Quantas paixões alucinadas
quantas horas de gabarolice
por cada aventura inverosímil?
Quantas notas há no vosso amor?
Quantos objectivos?
Quantos talismãs nos vossos preconceitos?
Quantas fogueiras?
Quanto rigor antropológico
quanta sinceridade
nesse desespero estruturado bem no mais fundo da cabeça
Quantas miragens exactas
nesta alegria empolada?
Quantas respirações controladas
no exercício da mentira
que nunca basta, nunca?
Quanto amor há no vosso amor?
Quantos dias na vossa vida?
Quantas mulheres e quantos homens
no vosso exército?
E que fardo os obrigam a transportar?
Quantas notas ligaram
quantas vozes enlaçaram
neste deserto sem fim?
E afinal, porquê?
hélène monette
poemas
tradução de rosa alice branco
(encontros de talábriga)
29 de outubro de 2008
a poesia / jean genet
E a tua ferida, onde está?
Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?
Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.
Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.
Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.
O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.
È visível no funâmbulo que refiro,
no olhar triste
que deve reportar-se às imagens de uma infância miserável,
inesquecível,
em que ele teve consciência
de ser abandonado.
(...)
jean genet
o funâmbulo
trad. de aníbal fernandes
hiena editora
1984
24 de outubro de 2008
a poesia / fernando lemos
não há tempo
Não há tempo
há horas
Não há um relógio
há
hábitos que
me habitam
O poema dói
o ponteiro corta
a hora que queima
a morte simula
respira
para não me distrair
fernando lemos
a única real tradição viva
antologia da poesia surrealista portuguesa
perfecto e. cuadrado
assírio & alvim
1998
2 de outubro de 2008
a poesia / antónio manuel pires cabral
Recado aos corvos
Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.
Deixai só a incomensurável
memória das labaredas
antónio manuel pires cabral
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990
12 de setembro de 2008
a poesia / marguerite yourcenar
solidão...
não creio como eles crêem,
não vivo como eles vivem,
não amo como eles amam...
morrerei
como eles morrem.
marguerite yourcenar
fogos
trad. de maria da graça morais sarmento
difel
1995
1 de setembro de 2008
a poesia / lawrence durrell
A cidade
Dizes: vou partir
Para outras terras, para outros mares
Para uma cidade tão bela
Como esta nunca foi nem pode ser
Esta cidade onde a cada passo se aperta
O nó corredio: coração sepultado na tumba de um corpo,
Coração inútil, gasto, quanto tempo ainda
Será preciso ficar confinado entre as paredes
Das ruelas de um espírito banal?
Para onde quer que olhe
Só vejo as sombras ruínas da minha vida.
Tantos anos vividos, desperdiçados
Tantos anos perdidos.
....................................................................................................
Não existe outra terra, meu amigo, nem outro mar,
Porque a cidade irá atrás de ti; as mesmas ruas
Cruzam sem fim as mesmas ruas; os mesmos
Subúrbios do espírito passam da juventude à velhice,
E tu perderás os teus dentes e os teus cabelos
Dentro da mesma casa. A cidade é uma armadilha.
Só este porto te espera,
E nenhum navio te levará onde não podes.
Ah! então não vês que te desgraçaste neste lugar miserável
E que a tua vida já não vale nada,
Nem que vás procurá-la nos confins da terra?
lawrence durrell
justine
tradução daniel gonçalves
ulisseia
2007
3 de agosto de 2008
a poesia / daniel faria
(do inexplicável)
Socorre-me, devolve-me a leveza
Da tão primeira nuvem que avistares.
daniel faria
explicação das árvores e de outros animais
fundação manuel leão
v.n.gaia 2002
27 de junho de 2008
a poesia / antónio josé forte
O Nome
Veio do outro lado do mar
pronunciado pelo fogo
e jaz nos jardins suspensos sobre a morte
como um vómito do coração
o nome podre de ninguém
antónio josé forte
caligrafia ardente
hiena
1987
29 de maio de 2008
a poesia / jorge velhote
Piazza S. Marco
A sabedoria é para os barcos
sob as pontes da noite,
a alma, o oiro.
Aqui dormiria, à distância singular
de um beijo, um lençol de água,
um travesseiro de cuidada pedra.
Outras coisas da infância, mas devagar, outros corpos a penumbra percorrendo,
a poeira da luz espiando os sapatos, a navalha chamuscada.
Também eu herdei a perigosa ilusão
da bicicleta, um silêncio
danado por mulheres, pelo ardor cristalino do álcool,
no limbo mais rasgado do mundo;
o segredo tão natural da pintura
na profecia azul dos mosaicos,
no carvão amargo da noite;
certos vestígios pelo tráfico outrora florescente:
sedas, frutos, tabaco, pequenos tesouros,
caixinhas de laque, sandálias
gastando, dia após dia, a mágoa.
Que posso fazer pelas pedras desta praça senão
cobri-las de aves, trapos, moedas
e pela poalha do crepúsculo seduzir os vitrais,
os óleos santos, o sândalo, o bolor intenso das paredes?
Cambiar a chuva pelos claustros do vento, o vidro
de oficiante fogo, como
em Murano a família Barelli?
Que poderei comprar para o vazio
deste anoitecer? um pouco do meu sol?
daquele mar, um punhado de areia?
jorge velhote
colóquio letras nr. 90
março 1986
fundação calouste gulbenkian
1986
14 de maio de 2008
a poesia / antonio orihuela
O fato novo do imperador
Tenho 31 anos e estou cansado.
Todos os sítios me vão parecendo, finalmente,
igualmente maus.
Todas as pessoas, incluindo as que gostam de mim,
insuportáveis.
Não encontro sentido nem para o que faço
nem para as coisas que deixo por fazer.
Olho para os outros
com a absoluta certeza de quem vê
não semelhantes,
serenos, resignados, envilecidos extraterrestres.
Olho para mim
e sinto-me como se não tivesse outros com quem partilhar.
Para onde quer que eu olhe,
a insuportável mentira que faz ninho, germina, destila
este tempo, este país, este modo de viver
a que chamam
progressista, tolerante, solidário, democrático,
avançado, europeu, e melhor e melhor
que todos os existidos,
que todos os possíveis.
Este modo de viver
onde falta tudo o que foi nomeado.
Que desfez a classe trabalhadora sem uma única bala,
que encarcerou as consciências sem uma única grade,
que me afasta sem um único cassetete,
que me exclui sem um ferro candente,
sem sequer uma estrela amarela na lapela.
Este tempo
de fatos novos,
de Imperadores.
antonio orihuela
poesia espanhola anos 90
trad. joaquim manuel magalhães
relógio d´água
2000
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