7 de outubro de 2008

carta de alforria






1/

já escrevi tantas cartas
de alforria!

não que tivesse sido genial
ou poderoso

mas porque
fui um homem livre

hoje contemplo
a minha grande casa branca

a minha grande casa branca
em ruínas

e sei que valeu a pena
ter resgatado tantos e tanta coisa
ao vazio e á solidão

valeu a pena
porque conquistei o meu direito
a ter medo







v de veneza
gil t. sousa
agosto de 2001






2 de outubro de 2008

a poesia / antónio manuel pires cabral





Recado aos corvos





Levai tudo:
o brilho fácil das pratas,
o acre toque das sedas.

Deixai só a incomensurável
memória das labaredas







antónio manuel pires cabral
as escadas não têm degraus 3
livros cotovia
março 1990





17 de setembro de 2008

os livros / gilles lipovetsky





GILLES LIPOVETSKY, A ERA DO VAZIO: ENSAIO SOBRE O INDIVIDUALISMO CONTEMPORÂNEO



“Anunciou-se precipitadamente o fim da sociedade de consumo quando é claro que o processo de personalização não para de lhe alargar as fronteiras. A recessão presente, a crise energética, a consciência ecológica não são o toque de finados da sociedade de consumo: estamos destinados a consumir, ainda que de outro modo, cada vez mais objectos e informações, desportos e viagens, formação e relações, música e cuidados médicos. É isso a sociedade pós-moderna: não o para além do consumo, mas sua apoteose, a sua extensão à esfera privada, à imagem e ao devir do ego chamado a conhecer a obsolescência acelerada, da mobilidade, da desestabilização. Consumo da sua própria existência através dos media desmultiplicados, dos tempos livres, das técnicas relacionais, o processo de personalização gera o vazio em technicolor, a flutuação existencial na e pela abundância de modelos, mesmo que condimentados de convivialidade, de ecologismo, de psicologismo. Estamos na segunda fase da sociedade de consumo, cool e já não hot, consumo que digeriu a crítica da opulência.”



gilles lipovetsky
a era do vazio: ensaio sobre o individualismo contemporâneo
trad. miguel serras pereira, ana luísa faria
relógio d´água
1988