18 de abril de 2008

a poesia / casimiro de brito




leio, na madrugada


1
Leio, na madrugada, o teu diário. O teu amor exaltado, adolescente (mas também sapiente), o teu receio de que eu me sinta só, dão-me uma confiança renovada na... Não foi propriamente o teu amor que restaurou em mim o equilíbrio, mas a confirmação (corporal) de que o amor é uma forma de respiração a dois, o amor convulsivo e cheio de sabedoria, je est un autre, a chama que irrompe de cada morte, o movimento que se desenvolve dentro do próprio caos. Ele (o teu amor agora lido em palavras escritas para eu as ler) eleva-me a regiões de ampla liberdade; e do que sinto por ti dir-te-ei que nunca a vertigem se confundiu tanto com a serenidade. «Do que te falo — escreves — não é da memória, mas da memória do falo: sangram areias.»

2
No teu diário: Será maravilhoso recordar estes dias de mar, de amor... estas noites de separação... quando a separação for completa, total, irremediável...
No meu: Será que inventas agora o amor apenas para conquistares um passado? Um pátio da saudade futura?
No teu diário: Estou só… tento adormecer, mas não posso… que fazer quando se tem medo de satisfazer um desejo… todos os desejos... de abandonar tudo… o meu quarto é vasto, mas estou só… talvez amanhã...

3
… a ternura mais generosa; a viagem pelo sangue até ao cansaço; a nua intimidade; a lúcida necessidade do delírio, da vertigem; o silêncio; o abandono vigilante. Talvez amanhã, escrevias. A memória não poderá deturpar este dia tão completo, a que nem faltou a outra face do prazer, a trágica, quando à noite em tua casa houve problemas graves por terem descoberto a nossa ligação. Andamos tão afastados uns dos outros que quando alguém se liga a alguém — as armas apontam. Eu sabia; esperava-te; «vem para minha casa.» Em tuas bocas arderam os meus rios.

4
Amor, amor. No teu corpo diurno encontro a paz de uma ilha no meio da cidade cinzenta. Na fonte de mármore onde me derramo com lúcida vertigem. Elevado ao êxtase, à mística (também.) experiência (como quem vê o amor) de: árvores coladas incendiadas esquecidas da sua autonomia solidão irremediável um mais um igual a uma libertação possível impossível nobilíssima construção de nervos bocas tensões e ossos que bebem a fonte e a água a terra e as sementes o dia e a morte. Amar-te foi um sopro: quebraste, mas o meu amor é meu — e eu dele memória e haste.

5
No teu corpo esplêndido, sóbrio, encontrei um novo sentido para o meu corpo —
uma justificação (de silêncio feita) para o meu estado de contínua explosão, rigorosa vigilância —
mas agora sou a casa onde o sol se alojou, e respiro pausadamente a aprendizagem do ofício de manter-me vivo.

6
Somos o autor um do outro? Diz o povo: O homem faz a mulher e a mulher faz o homem. A interiorização recíproca da imagem do outro, a maturação do «eu» do sujeito, a matéria-prima do casal, dizem os sábios.

7
Como quem assiste ao espectáculo de uma vida/que posso modificar por ser a minha: a intimidade, a cumplicidade de quem procura os seus limites/quem entra neste jogo (da vida contra o excesso) em que tudo se arrisca não sabe de antemão onde o fogo se excede, e destrói/e leva ao infinito o desejo, o terror, o movimento incontrolável da morte/onde já quase não podemos suportar/os pobres limites do humano.

8
De uma carta para Z (escrita à boca de cena): apenas quando se destroem, ou, pelo menos, arriscam a destruição, é possível entre os corpos a comunicação do espanto, do silêncio, do caos, do pathos, da aridez, da vertigem, da violência… apenas quando assumem o seu potencial de corrupção, loucura, transparência... mas quando nos encontrámos foi como se a nossa capacidade de explosão se tivesse detido, aterrada, perante a lucidez de quem sabe que todos os limites podem ser destruídos, e com eles a vida, a descontinuidade... e tivéssemos inventado (ou descoberto) um paraíso artificial privado. Ficção? Ou era a sensação (nitidamente partilhada) de que os nossos corpos não poderiam deixar de representar o fogo senão quando o fogo os tivesse inteiramente destruído? O medo do vício, da corrupção? Com essa carne se alimenta o cerne das tragédias.

9
No teu diário: Ficarão apenas recordações destes dias cheios de, como dizer, de excitação,.. de vertigem? em que mulher me transformei após estas... experiências? Tenho medo... mas não quero apagar a mancha dos meus passos. Não posso deixar de pensar nisto, talvez palavras tuas, o amor que só se conquista no amor insaciável… no amor que nos alimenta e nos mata se morre... mas tenho ainda mais medo do teu silêncio, dos teus longos silêncios, e do esquecimento. Enfim, salve-se a vida que for possível. Ah, se ao menos eu tivesse coragem, ou essa manha que dizem de mulheres, de romper a tua noite...

10
No meu: Como se este rosto tivesse deixado de ser o meu rosto — este rosto (o meu) deixou de ser o meu rosto. Desconheço-me. Um rosto exilado do meu justo desejo de ler o seu discurso, conhecer a tessitura consentida pelo tempo. Tal como não posso habitar o meu caminho, mas apenas viajá-lo sem profundidade, o meu rosto é um nascimento, sempre original, a que assisto: um acto de obscura violência, de obscura criação de... liberdade? Ou só: criação. No amor como na morte, no amor da morte, na morte do amor, no amor-morte, e definitivamente (isto é: agora) a plenitude é levíssima, alcalina, transparente, flexível e imatura tal como o vazio, a disponibilidade (razão da tua vida) é pesadíssima, rugosa, opaca, intensa, grávida, voluptuosa. Que irrisão!

11
Afinal: um mais um é sempre incompletamente igual a um. Fizemos disto um projecto, mas falhámos. O teu corpo (afinal pouco subtil: a arte do amor aprende-se dificilmente) e o meu corpo (afinal desfeito, «pelo banquete da inteligência», dizias) afastaram-se. Separados por uma crosta de vidro, afirmo-o com a humildade de quem tudo experimentou, e pode julgá-lo, ah mas foram anos de frescor, espanto, caos, sangue, teatro, pânico, bonomia, voo de pássaros, suspensão, indisciplina, escuridade, cristal terrível — foram anos e anos vividos em alguns dias. E sempre um hiato, uma espada entre espáduas queimadas. Procurei, na tua fonte mais funda, a minha identidade — encontrei a sombra de uma sombra.

12
Escrevi por esse tempo: Cada uma das tuas inspirações e expirações, cada um dos teus reflexos fugitivos, o influxo que te mantém autónoma neste mundo vivo, os milhões de minúsculas vidas que transportas nos teus órgãos, têm mais importância — mas não saberia medi-la — do que os conceitos do amor e do ódio, dogmas, ideologias, sistemas sob os quais aparentemente construímos a nossa vida, aí onde apenas se revela um décimo do imenso iceberg da nossa existência, a vida eléctrica, a vida química, a energia infinita da matéria trágica mas também épica que somos. Escrevendo sobre ti, Magda (e eu fazia-o no teu «diário»), é da minha condição (andrógina, hermafrodita?) que falo. É o meu falo que humildemente elevo. A humildade de quem se sabe prisioneiro eterno de uma bola de lama indestrutível, de quem se afasta da multidão para se situar na solidão...

Escreveste à margem: «Humilde, tu? Tu, quem? Grandessíssimo sacana!»










casimiro de brito
imitação do prazer
publicações dom quixote
1991


11 de março de 2008

geração x


DOUGLAS COUPLAND, GERAÇÃO X





morto aos 30 enterrado aos 70


(…)

«Tornei-me assexual e sentia o corpo virado do avesso – coberto de gelo, carbono e contraplacado como os mini centros comerciais, as moagens e as refinarias de petróleo abandonadas de Tonawanda e das cataratas de Niagara. Os sinais sexuais tornaram-se omnipresentes e eram repulsivos. O contacto visual acidental com marçanos de 7-Eleven revelaram-se carregados de significado vil. Todas as trocas de olhares com estranhos se tornaram na muda pergunta “É você o estranho que me vem salvar?” Faminto de afeição, apavorado pelo abandono, comecei a pensar se o sexo não passaria realmente de uma desculpa para olhar mais fundo nos olhos de outro ser humano.
«Comecei a achar a humanidade repelente, reduzindo-a a hormonas, flancos, protuberâncias, secreções e constrangedores fedores a metano. Nesta fase, pelo menos, senti que não tinha hipótese de continuar a ser o consumidor modelo ideal. Se, de regresso a Toronto, tentei viver das duas maneiras considerando-me livre e criativo ao mesmo tempo que fazia de bananas mandrião na empresa, também paguei o meu preço.
«Mas aquilo que realmente me apanhou foi o aspecto que os jovens podem ter aos nossos olhos, curiosos, mas sem rasto de fome do corpo. Adolescentes, até mais novos, que eu via felizes de fazer inveja durante as minhas jornadas agorofóbicas pelos centros comerciais de Buffalo ainda abertos. Esse olhar sem malícia tinha-se varrido para sempre de mim, bem o sentia, e convenci-me de que iria passar os quarenta anos seguintes no vazio, agindo por movimentos vitais enquanto ouvia o escárnio do barulho das maracas do pó de jovens múmias a bater dentro de mim.
«Okay, okay. Todos temos as nossas crises, senão, suponho, não seríamos completos. Não sei contar quantas pessoas conheço que se gabam de ter tido muito cedo a sua crise de meia-idade. Mas chega invariavelmente um certo ponto em que nos falta a juventude; falta-nos a faculdade; falta-nos a Mamã e o Papá. Por mim, nunca mais encontrei refúgio nas manhãs de Domingo passadas em quartos desarrumados, rugosos por causa do isolamento de vidro, a ouvir a voz do Mel Blanc na televisão, a respirar estupidamente vapores de xénon dos blocos de escória, a petiscar comprimidos de mascar de vitamina C e a atormentar as Barbies da minha irmã.
«Mas a minha crise não era apenas o fracasso da juventude, era também um fracasso de classe e de sexo e do futuro e ainda não sei de que mais. Comecei a ver este mundo como um sítio onde os cidadãos ficam especados a olhar, por exemplo, para a Vénus de Milo sem braços e a fantasiar sobre sexos amputados ou a aplicar por direito próprio uma parra à estátua de David, não sem que antes lhe tenham partido a piça para levar de recordação. Todos os acontecimentos se tornam presságios; perdi a capacidade de tomar seja o que for literalmente.
«Portanto, a questão toda era que eu necessitava de uma folha em branco e não tinha quem a lesse. Precisava de sair umas paragens adiante. A minha vida tinha-se tornado uma série de incidentes assustadores que simplesmente não se encadeavam para formarem um livro interessante e, Meu Deus, envelhecemos tão depressa! O tempo estava (e está) a fugir. Por isso pisguei-me para onde o tempo é quente e seco e os cigarros baratos. Como tu e a Claire. E cá estou.»








douglas coupland
geração X
trad. telma costa
teorema
1994


28 de fevereiro de 2008

mais longe





fora do tempo
é mais longe do que qualquer espelho

minha ilha
meu incêndio de pedra

sobre a corrente assassina
de me perder


cansa-me de água e de sol
inquieta-me

do segredo das sementes
e do chão tóxico

dos vulcões
em que me deitei

quando a noite me atormentava
de não chegares

quando a madrugada
me matava de partires