8 de outubro de 2007

quase requiem






caminhamos na noite
como verbos sujos numa carta de amor

vencidos pelo tempo e pela luz
perdemos as sombras
e temos no rosto
a condenação das estátuas
a mudez dos seus lábios
o desespero fatal dos seus olhos secos
pela eternidade

que negros navios nos carregaram futuros, destinos
e nos largaram nestas ilhas malditas
nestas geografias podres
a que nunca pertenceremos?

que estranho sangue fizemos correr
nas nossas veias já mortas
ruelas de ruínas queimadas
escombros de palácios onde a alma nos morava
donde foi expulsa toda a esperança
e o sonho se esfumou como incenso no deserto

que brilhantes fantasmas nos tornámos
rindo dos espelhos e das águas
onde nos deixaram as raízes
que nos seguravam da loucura

estamos tão sós, tão podres de agonia
e medo!

o corpo lacrado à dor, as rugas escondidas do tempo
o amor apedrejado às coisas e aos outros
como uma moeda atirada da torre de tortura
duma cidade comida pela peste

que fizemos ao tempo de morrer
com uma mão na nossa mão?







25 de setembro de 2007

os livros / irene lisboa


IRENE LISBOA, SOLIDÃO II



IDEIAS sobre o amor?

Sim, têm-se. E têm-se, sobretudo, horas violentas de amor, certezas e sonhos loucos.

Certezas! Mas que absurdo... As certezas são apenas nossas; pobres cálculos instantâneos e definitivos. Deliberações... A vida de súbito, refeita, alterada, liquidada, iniciada sem uma base, mas em outro estilo que não o velho...

O amor, é uma coisa fugaz e maravilhosa; dá-nos ao espírito uma tal capacidade de reforma, de criação de uma estrutura própria! Enfraquece-nos e subtiliza-nos, força-nos a infinitas abdicações, que não são propriamente negações, que são tentativas ardentes e inconscientes de recreação psíquica, de conformação com o tipo moral novo que se nos depara e nos agita. E uma espécie de corrida, de saída de um eu pessoal para um eu alheio — que afinal só desejamos captar, cativar, conquistar, render — rendendo-nos nós a ele...

Muda-se de terra, de meio, de época, e temos casualmente uma hora, uma dessas doces mas tão incertas tão avassaladoras e inseguras horas de ânsia amorosa... Hora infinitamente discreta e delicada, quase pueril, de favor e de mimo, mas dominante, enterrada no cerne da nossa sensibilidade, lavrando-o. Hora arrebatadora, imensa e breve. Sempre desiludida!

Porém o amor e o desejo nunca o são de um só; a partilha os assedia, misteriosamente fustiga. Toda a poderosa torça imanente da vida no-lo prova ou revela. Mil possibilidades compreensivas, receptivas, comunicativas nos atravessam, se nos oferecem. Sem logros, sem enganos... Há recíprocos acordos rápidos, inexprimíveis e inutilmente aclarados, impositivos. E porque é que os frustramos? Que traição nos fazemos!

Quando ela queria dizer sim, diz e/e não. É inevitável... Ou então, o contrário.

Perdem-se os passos juntos dados, que tiveram, sensível ou insensivelmente, uma harmonia tão subtil e cariciosa, a pressão doce e casual das mãos já esquecida, os olhares comuns, alienados. Os seres que se aproximam, retraem-se. Porquê? Que louco jogo é este da vida?

É perversa a natureza, ou a nossa realidade nos conduz fatalmente à negação?

O sol e a chuva, a paisagem da terra, que é a acidentalidade dos que por ela passam sem demora, as estrelas e o escuro da noite, o movimento alheio, o povo, o inconsciente imenso que nos aperta e nos abandona, que nos mantém acompanhados e sós, influídos e desinteressados, para quem e a favor de quê trabalharam? Demos-lhe um lugar enorme, uma aceitação fervorosa e poética, desdobrámo-los momentânea e quase absolutamente no nosso caloroso espírito... E eles que nos devolvem? Nada. Anulam-se, repelem-nos. Continuam existindo mas já vazios, aniquilados.

É isto, parece que é sempre isto, o amor. Uma labareda e um pozinho de cinza. Ímpeto e incerteza, calor e frio. Realizado, ou não realizado, é uma flor brilhante, que ninguém colhe, que ninguém guarda, de que todos conhecem o nome, apenas o nome...

Mais uma palavra dita, uma afirmação? Seriam inúteis. Amor concluído, amor iniciado têm ambos a mesma realidade: não duram.

Dos dois, homem e mulher, aquele que diz ao outro não, é o mais sábio. E o mais cruel. Tem a previsão, a lucidez fria dos permanentes destinos. O que esperou, o que sonhou, é o eterno tonto, sem domínio e deslumbrado, renascendo sempre para a ilusão.




irene lisboa
solidão II
portugália editora
1979





18 de setembro de 2007

a poesia / eduardo bettencourt pinto


solstício





a Eugénio Lisboa


Nunca se regressa do tempo mas dos espelhos,
lagos onde te debruças e espreitas o silêncio
do teu rosto.
Cada manhã lembram-te, como um severo juiz,
o órfão menino que foste.
No fundo dos olhos perderam-se as garças,
a clara e pueril sombra das olaias,
setembro cantava ainda sobre os ombros
ou entre as primeiras chuvas da tua vida.
Foi um instante: o lume que te levou
à alegria eterna de um momento
foi-se apagando nas mãos, oiro e pedra
da alma.
Até a paciência se tornou numa guitarra calada.
Mas não percas nisso o canto.
Daqui a pouco te levantarás da melancolia,
essa cama de equívocos onde o corpo se deita
cansado e que acaba por sequestrar o coração.
Enquanto os presidiários do fatalismo se encerram
nos labirintos da solidão, segue por outro caminho
em direcção ao sul, à casa e à claridade
onde os teus passos nasceram
em corrida para o rio.











eduardo bettencourt pinto
da outra margem
antologia de poesia de autores portugueses
instituto camões
colecção diáspora
2001