13 de julho de 2007
memória
e vinha a luz
e guardava-te
e eu guardava-te
também
em lugares mais seguros
que fotografias
ou poemas
7 de julho de 2007
luto
atravessava a morte
com a lentidão rigorosa dos amantes
e voltava
voltava sempre
trazia em pedaços de papel
coisas cada vez maiores
que já só podia arrumar no coração
3 de julho de 2007
a poesia / rené char
Bruscamente recordas-te de que tens um rosto. Os traços que formavam o seu relevo não eram todos traços de desgosto, antigamente. Em direcção a essa paisagem múltipla erguiam-se seres dotados de bondade. Nela, o cansaço não seduzia apenas naufrágios. Nela respirava a solidão dos amantes. Olha. O teu espelho transformou-se em fogo. Insensivelmente, recuperas a consciência da tua idade (que saltara do calendário), desse acréscimo de existência cujos esforços construirão uma ponte. Recua no interior do espelho. Se não consumires a sua austeridade, pelo menos a sua fertilidade não se esgotou.
rené char
furor e mistério
trad. margarida vale de gato
relógio de água
2000
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