6 de junho de 2007

os livros / baudelaire


BAUDELAIRE, A FANFARLO





Entre nós, não se dá grande valor à arte da dança, diga-se de passagem. Todos os grandes povos e, antes de mais, os da antiguidade, da Índia ou da Arábia, a cultivaram a par da poesia. Para certas sociedades pagãs de outrora, a dança está tanto acima da música como o visível e as coisas criadas estão acima do invisível e do informe. Só aqueles a quem a música consegue comunicar impressões semelhantes às da pintura me poderão compreender. A dança é capaz de revelar tudo o que a música contém de misterioso e tem ainda o mérito de ser humana e tangível. A dança é a poesia dos braços e das pernas, é a matéria, graciosa e terrível, animada e embelezada pelo movimento. Terpsicore é uma Musa do Sul; imagino-a muito morena, a dançar pelas searas douradas; os seus movimentos, impregnados de uma cadência precisa, constituem também sublime motivo para a estatuária. Mas a católica Fanfarlo, não contente em rivalizar com Terpsicore, chamava ainda a si toda a arte das divindades mais modernas. Nessas zonas de bruma, confundem-se, entre si, formas de fadas e de ondinas menos indolentes e vaporosas. A Fanfarlo foi ao mesmo tempo a personagem de um capricho de Shakespeare e a de uma comédia bufa à italiana.
(…)










charles baudelaire
a fanfarlo
trad. antónio guerreiro e fernando guerreiro
hiena editora
1988




2 de junho de 2007

seguíamos a água




seguíamos a água
porque a secura nos cercava
como um animal
quase louco

do alto de pedras antigas
avistávamos cidades
para onde partíamos
a todas as horas

metrópoles
de ventos eufóricos
que nos sopravam
a humanidade inteira

na forma
do grito e do olhar
e no incêndio infinito
do sangue

e eram tão poderosas
as palavras que sabíamos
tão nobres os silêncios
por onde elas espelhavam

e tão grande
era tão grande o coração
que as ouvia,
que as guardava

num secreto
para sempre!







31 de maio de 2007

a poesia / maria do rosário pedreira





Chegam cedo de mais, quando ainda não podem escolher
nem decidir. Vêm carregados de espectros, de memórias
e de feridas que não souberam sarar; mas trazem a confiança
da cura nas palavras. Convencem-se de que amam outra vez


quando nos tocam os pequenos lugares, esquecendo-se do rumo
incerto dos seus passos nas estradas tortuosas que os
trouxeram. Abafam-se num cobertor de mentiras sem saber e
falam de injustiça quando tentamos chamá-los à verdade.


Dormem de vez em quando nas nossas camas e protegemo-los
da dor como aos filhos que não iremos ter nunca
porque não nos resignamos a perdê-los. E, um dia, partem, vão


culpados, não chegam a explicar o que os arrasta. Escrevem
cartas mais tarde – uma ou duas palavras para se aliviarem dessa espada.
E nós ficamos, eternamente, sem vergonha, à espera que regressem.









maria do rosário pedreira
a casa e o cheiro os livros
gótica
2002