7 de janeiro de 2007

a poesia / jean cocteau



Aproveitei-me, confesso, de certos acidentes
Do mistério e de erros de cálculos celestes.
Aí está toda a minha poesia: eu decalco
O invisível (o que para vós é invisível).
Ao crime disfarçado em trajo desumano,
«Mãos ao ar!», gritei eu, «É inútil reagir»;
A encantos informes tratei de dar contorno;
Das astúcias da morte a traição informou-me;
Com tinta azul fiz aparecer, de súbito,
Fantasmas transformados em árvores azuis.


Será louco dizer que é simples ou sem perigo
Empresa semelhante. Incomodar os anjos!
Descobrir o acaso em flagrante delito
De batota, e as estátuas a tentarem andar!
Por cima de cidades que pareciam desertas,
Nos mirantes aonde somente chega a voz
Dos galos, das escolas, buzinas de automóveis
(Os únicos ruídos que das cidades sobem),
Surpreendi, provindos dos subúrbios do céu,
Assombrosos rumores, gritos de outra Marselha.

«Par lui-même», vv 1-20, Opéra (1927)







vozes da poesia europeia – III
traduções de David Mourão-Ferreira
Colóquio Letras número 165
Setembro - Dezembro 2003



6 de janeiro de 2007

os livros / joan didion


JOAN DIDION, O ANO DO PENSAMENTO MÁGICO


[…]

As pessoas que perderam recentemente alguém têm urna certa expressão que talvez só reconheçam os que já a viram no seu próprio rosto. Reparei nessa expressão no meu rosto e agora reparo nessa expressão no rosto dos outros. É uma expressão de vulnerabilidade extrema, de nudez, de acessibilidade. É a expressão de alguém que sai do consultório do oftalmologista para a luz do dia com os olhos dilatados, ou de alguém que usa óculos e que de repente é obrigado a tirá-los. As pessoas que perderam alguém parecem nuas porque pensam em si mesmas como se fossem invisíveis. Eu própria me senti invisível durante um espaço de tempo, incorpórea. Parecia-me ter atravessado um daqueles rios lendários que separam os vivos dos mortos, que tinha entrado num lugar onde só podia ser vista pelos que também haviam recentemente sofrido urna perda. Compreendi pela primeira vez a força da imagem dos rios, o Estige, o Lete, o barqueiro com o seu manto e a vara. Compreendi pela primeira vez o significado da imolação praticada na Índia. Não é a dor que atira as viúvas para a pira funerária. Pelo contrário, a pira funerária é uma representação exacta do lugar para onde as leva a sua dor (não as famílias, nem a comunidade, nem a tradição — a sua dor). Na noite em que John morreu, faltavam vinte e um dias para o nosso quadragésimo aniversário. Entretanto, já devem ter adivinhado que «a dura e doce sabedoria» dos dois últimos versos de «Rose Aylmer» estava perdida para mim.
Queria mais do que uma noite de recordações e suspiros.
Queria gritar.
Queria que ele voltasse.





o ano do pensamento mágico
trad. eduarda correia
gótica
2006




29 de dezembro de 2006

falso lugar #049


Lisbeth Zwerger



febre



eles deixaram-me
porque lhes pedi a febre

não há mundo
no que não se incendeia

escuta:
sou uma vela branca
a murmurar a sua chama

apaga-me
se quiseres ir