I
O LIVRO DE UM HOMEM MORTO
Pensamentos em bruto e violentas forças são o meu estado. Não sei quem sou. Nem aquilo que fui. Não ouço um único som. Abeira-se uma dor que há-de ser como nunca houve alguma…
Será este o medo que sustenta o universo? Será a dor o fundamento? Todos os rios veias de dor? Os oceanos, a minha mente inundada? Tenho uma sede como o calor da terra em fogo. Contorcem-se montes. Vejo ondas de chamas. Aluimentos, clarões, ondas de chamas.
A sede está nos rios do corpo. Os rios queimam, mas não se movem. Há carne - será carne? -debaixo de uma qualquer pedra aquecida. Ergue-se lava em campos consumidos pelo fogo.
Onde, em que gruta, se deram tais desmembramentos? Há bocas vulcânicas a despedir fogo, poços a borbulhar. Os ossos assentam como cascalho sobre a ferida.
Ser-se-á humano? Ou estar-se-á apenas vivo? Como uma folha de erva equivalente a toda a existência no momento em que é arrancada? Sim. Se a dor é o fundamento, uma folha de erva pode conhecer tudo quanto existe.
Um número ardente surgiu perante mim. A chama revelou uma orla tão isenta de vacilações como uma faca, e penetrei por esse ígneo sinal adentro. Em fogo comecei a fluir por entre a clara e ardente existência do número 2.
A dor entrou num latejar. Cada repouso entre cada pontada não era bastante ... Ah, o torcer da esperança, o dilacerar da fibra. Os meus órgãos tinham-se certamente distorcido, sim, e o guinchar do osso ao quebrar. Abriam-se portas sobre explosões.
A dor instalou-se na mais cintilante das luzes. Fiquei exposto à rocha ardendo. Demoníaco, o calor do sol e o sangue a ferver nas veias. Não mais voltaria a ser sangue? Foi então que a corrente dos fogos mais altos me deu a conhecer — pela própria intensidade — que não seria destruído. Tinha de haver qualquer existência do outro lado. Por conseguinte, deixei fugir os meus poderes enquanto carbonizavam no coração. Estes poderes moribundos podiam ainda dar vida a outras porções de mim. Porque eu divisava um fio a estremecer na escuridão, uma gavinha viva no carbono enegrecido das minhas carnes, tão fina como o mais delicado nervo, e, ao longo de cada dor, buscava aquele filamento com todo o requinte de angústia, até que a própria dor adquiriu tal esplendor que tive uma revelação. O filamento não era um fio, mas dois, enrolados entre si com imaculada subtileza. Enredavam-se um no outro durante os espasmos mais intoleráveis, e não obstante eram céleres a apartar-se ao primeiro alívio, e com tal tenuidade de movimentos que tive a certeza de presenciar a vida da minha alma (finalmente vista!) a dançar como poalha sobre as chamas.
A seguir tudo se perdeu de novo. As minhas entranhas estremeceram com uma desagregação oceânica, prestes a alijar toda uma multitude de gorduras, doçarias e sucos da velha carne encharcada em prazeres, com o frenesi de um traidor vomitando tudo sob a tortura. Abriria mão do que quer que fosse para cavalgar mais leve a próxima vaga de repulsa e, na escuridão de vagas de carne fustigando águas naturais de som, forcejava.
Não podia sepultar-me em tais enxofres. Não eram as emanações, mas sim o terror de sufocar; não era a morte pelo fogo, mas sim o solo a sepultar-me. Era a argila! Sobreveio uma visão da argila a vedar as narinas e a boca e os ouvidos, infiltrando-se nas órbitas ... Tinha perdido totalmente a visão do filamento duplo. Havia apenas eu próprio naquelas grutas sepultas e o martelar do meu intestino. Contudo, se eu estivesse destinado a ser soterrado no negrume daqueles gritantes e ferventes objectos, tinha logrado uma visão com que me atormentar. Porque me compenetrara da beleza da minha alma no preciso momento em que não podia alcançar o seu uso. Pereceria com tais ideias ao mesmo tempo que as obtivera?
Chegou então um momento de paz nesta tempestade e tumulto das vias respiratórias. Conheci a desolação solene do aplacado centro do furacão, e nessa calmaria vi com pesar que podia agora ser sábio sem vida na qual aplicar a minha sabedoria. Porque tinha uma perspectiva de antigos diálogos. Outrora tinha vivido como amo e escravo ... e agora um e outro estavam perdidos para toda e qualquer nova captura ... Ah, o diálogo perdido que nunca se tinha dado entre a minha parte melhor e a restante. O cobarde é que fora o amo. Houve então algo que abriu alas nas longas galerias do meu orgulho e obtive uma visão do fundamento da dor, uma visão tão bela quanto estreita. Mas agora os moinhos da injúria giravam de novo. Como uma serpente cujas entranhas se desintegraram, desisti, implorei paz e dei origem à minha sangrenta e coagulante história de convoluto e tortuoso estripado. Houve uma qualquer totalidade de mim que se me esvaiu do ventre, e vi a figura ardente do 2 dissolver-se em chamas. Não mais seria aquilo que fora. A minha alma estava dolorida, humilhada e enfurecida por essa privação, e contudo arrogante como a própria beleza. Porque a dor cessara e eu era novo. Possuía uma vez mais um corpo.
noites antigas
trad. teixeira de aguilar
publicações europa- américa
1983
27 de maio de 2006
os livros / norman mailer
22 de abril de 2006
os livros / samuel beckett
SAMUEL BECKETT, NOVELAS E TEXTOS PARA NADA
Não sei quando morri. Sempre me pareceu que morri velho, por volta dos noventa anos, e que anos, e que o meu corpo o comprovava, da cabeça aos pés. No entanto, neste final de tarde, sozinho na minha cama gelada, sinto que vou ser mais velho do que o dia, do que a noite em que o céu caiu com todas as suas luzes sobre mim, o mesmo céu que tantas vezes olhei, desde que vagueava pela terra longínqua. Porque hoje tenho medo demais para me ouvir apodrecer, para esperar pelos grandes e violentos baques do coração, pelas contorções do ceco sem saída e para esperar que se cumpram na minha cabeça os longos assassínios, o assalto aos pilares inquebrantáveis, o amor com os cadáveres. Vou portanto contar a mim mesmo uma história, vou portanto tentar contar mais uma vez a mim mesmo uma história, para tentar acalmar-me, e é nessa história que sinto que serei velho, muito velho, ainda mais velho do que no dia em que caí, clamando por socorro, e o socorro chegou. Ou talvez nessa história eu tenha regressado à terra, depois de morrer. Não, não é o meu género, regressar à terra, depois de morrer.
(…)
novelas e textos para nada
trad. maria jorge vilar de figueiredo
assírio & alvim
2006
1 de abril de 2006
os livros / roland barthes
ROLAND BARTHES, INCIDENTES
Hoje, 17 de Julho, está um tempo esplêndido. Sentado no banco, pisco os olhos, por brincadeira, como fazem as crianças, e vejo uma margarida do jardim, com todas as proporções alteradas, estender-se sobre a planície em frente, do outro lado da rua.
A rua corre como uma ribeira tranquila; atravessada de quando em quando por uma motocicleta ou um tractor (são estes, hoje em dia, os verdadeiros sons do campo, não menos poéticos, afinal, que o cantar dos pássaros: sendo raros, fazem sobressair o silêncio da natureza e imprimem-lhe a marca discreta de uma actividade humana), a rua lá vai irrigar uma zona mais afastada da aldeia. Já que esta aldeia, apesar de modesta, tem as suas zonas periféricas. Não será sempre a aldeia, em França, um espaço contraditório? Restrita, centrada, ela não deixa de se prolongar até bastante longe; a minha, muito clássica, tem apenas um largo, uma igreja, uma padaria, uma farmácia e duas mercearias (hoje em dia, devia dizer dois self-services); mas tem também, por uma espécie de capricho que perturba as leis aparentes da geografia humana, dois cabeleireiros e dois médicos. França, país de medida? Digamos antes — e isto a todos os níveis da vida nacional: país das proporções complexas.
Do mesmo modo, o meu Sudoeste é extensível, como aquelas imagens que mudam de sentido consoante o nível da percepção em que decido captá-las. Conheço assim, subjectivamente, três Sudoestes.
O primeiro, muito vasto (uma quarta parte da França), é-me designado instintivamente por um sentimento tenaz de solidariedade (pois estou longe de o ter visitado na sua totalidade): qualquer notícia que me chegue desse espaço toca-me de uma forma pessoal. Ao pensar nisto, parece-me que a unidade desse grande Sudoeste é para mim a língua: não o dialecto (pois não conheço nenhuma langue d’oc); mas o sotaque, porque não há dúvida que o sotaque do Sudoeste formou os modelos de entoação que marcaram a minha primeira infância. Este sotaque gascão distingue-se para mim do outro sotaque meridional, o do Sul mediterrânico; este tem, na França de hoje, algo de triunfante: sustentado por todo um folclore cinematográfico (Raimu, Fernandel), publicitário (azeites, limões) e turístico; o sotaque do Sudoeste (talvez mais pesado, menos cantante) não tem esses títulos de modernidade; para se ilustrar tem apenas as entrevistas dos jogadores de rugby. Eu próprio não tenho sotaque; no entanto, ficou-me da infância um «meridionalismo»: digo «socializmo» e não «socialismo» (quem sabe se assim não serão dois socialismos?).
O meu segundo Sudoeste não é uma região; é apenas uma linha, um trajecto vivido. Quando, vindo de Paris de automóvel (uma viagem que fiz mil vezes), passo Angoulême, um sinal avisa-me que passei o limiar da casa e que entro no país da minha infância; um pequeno bosque de pinheiros de um dos lados, uma palmeira no pátio de uma casa, uma determinada altura das nuvens que dá ao terreno a mobilidade de um rosto. Então começa a grande luz do Sudoeste, nobre e subtil ao mesmo tempo; nunca é cinzenta, nunca é baixa (mesmo quando o sol não brilha), é uma luz-espaço, definida menos pelas cores com as quais afecta as coisas (como no outro Sul) do que pela qualidade eminentemente habitável que dá à terra. Não encontro outra forma de o dizer; é uma luz luminosa. É preciso vê-la, a essa luz (eu diria quase ouvi-la, de tal modo é musical), no Outono, que é a estação soberana deste país; líquida, brilhante, dilacerante porque é a última luz bela do ano, iluminando cada coisa na sua diferença (o Sudoeste é um país de micro-climas), preserva este país de toda a vulgaridade, de toda a gregaridade, torna-o impróprio para turismo fácil e revela a sua aristocracia (não é uma questão de classe, mas de carácter). Dizendo isto de uma maneira tão elogiosa, sinto um certo escrúpulo: não haverá nunca momentos ingratos, neste clima do Sudoeste? Há certamente, mas, para mim, não são os momentos de chuva ou de tempestade (frequentes, no entanto); não são apenas os momentos em que o céu está cinzento; os acidentes da luz, aqui, parece-me, não provocam qualquer «spleen»; não afectam a alma, mas apenas o corpo, por vezes viscoso de humidade, embriagado de clorofila, ou fatigado, extenuado pelo vento de Espanha que torna os Pirinéus muito próximos de um tom violeta: sentimento ambíguo, em que o cansaço acaba por ter algo de delicioso, como acontece sempre que é o meu corpo (e não o meu olhar) a perturbar-se.
O meu terceiro Sudoeste é ainda mais reduzido: é a cidade onde passei a minha infância, e depois as minhas férias de adolescente (Bayonne), é a aldeia onde volto todos os anos, é o trajecto que liga uma à outra e que eu percorri tantas vezes, para ir à cidade comprar charutos ou artigos de papelaria, ou à estação buscar um amigo. Posso escolher entre várias estradas; uma, mais longa, passa pelo interior das terras, atravessa uma paisagem em que se misturam o Béarn e o país Basco; outra, uma deliciosa estrada de campo, segue o cume das encostas que dominam o Adour; do outro lado do rio, vejo uma fileira contínua de árvores, escuras por estarem longe: são os pinheiros das Landes; uma terceira estrada, muito recente (data deste ano), corre ao longo do Adour, na sua margem esquerda: não tem qualquer interesse, a não ser o da rapidez do trajecto e, por vezes, de fugida, o rio, muito largo, muito suave, ponteado pelas pequenas velas brancas de um clube náutico. Mas a estrada que eu prefiro e que de vez em quando escolho seguir por prazer, é a que acompanha a margem direita do Adour; antigamente, servia para rebocar barcos, e vêem-se algumas quintas e casas bonitas. Certamente gosto dela por ter, pela sua natureza, essa dosagem de nobreza e familiaridade que é própria do Sudoeste; poder-se-ia dizer que, ao contrário da sua rival da outra margem, é ainda uma verdadeira estrada, não uma via funcional de comunicação, mas como uma experiência complexa, onde têm simultaneamente lugar um espectáculo contínuo (o Adour é um belo rio desconhecido) e a memória de uma prática ancestral, a de andar, a penetração lenta e como que ritmada da paisagem, que imediatamente adquire outras proporções; retoma-se neste ponto o que ficou dito no princípio, e que é no fundo o poder que tem este país de frustrar a imobilidade e a rigidez dos postais; não vale a pena fotografar; para avaliar, para amar, é preciso vir e ficar, de modo a poder percorrer todas as variações dos lugares, das estações, dos climas, das luzes.
Dir-me-ão: limita-se a falar do tempo, de impressões vagamente estéticas, em todo o caso puramente subjectivas. Mas os homens, as relações, as indústrias, os comércios, os problemas? Mesmo como simples residente, não se apercebe de nada disso? — Entro nestas regiões da realidade à minha maneira, quer dizer, com o meu corpo; e o meu corpo é a minha infância, exactamente como a fez a história. Essa história proporcionou-me uma juventude provincial, meridional, burguesa. Para mim, estas três componentes são indistintas; a burguesia é para mim a província, e a província é Bayonne; o campo (da minha infância), é sempre o interior de Bayonne, rede de excursões, de visitas e de histórias. Por isso, na idade em que a memória se forma, das «grandes realidades» só aproveitei a sensação que me provocavam: alpercheiros, cansaços, sons de vozes, passeios, luzes, tudo aquilo que, do real, é de certo modo irresponsável e não tem mais nenhum sentido a não ser o de mais tarde formar a recordação do tempo perdido (completamente diferente foi a minha infância parisiense: cheia de dificuldades materiais teve, se assim se pode dizer, a abstracção severa da pobreza, e não tenho quaisquer «impressões» do Paris dessa época). Se falo deste Sudoeste exactamente como a sua recordação é refractada em mim, é por acreditar na fórmula de Joubert: «Não devemos exprimir-nos como sentimos, mas como recordamos».
Estas insignificâncias são, portanto, como as portas de entrada dessa vasta região de que se ocupam o saber sociológico e a análise política. Nada, por exemplo, tem mais importância nas minhas recordações do que os cheiros desse bairro antigo, entre Nive e Adour, a que se chama o Petit-Bayonne: todos os objectos do pequeno comércio ali se misturam, compondo uma fragância inimitável; a corda das sandálias (aqui, não se diz «alpergatas»), trabalhada por velhos Bascos, o chocolate, o azeite espanhol, o ar confinado das lojas obscuras e das ruas estreitas, o papel envelhecido dos livros da biblioteca municipal, tudo isso funcionava como a fórmula química de um comércio desaparecido (ainda que este bairro conserve um pouco desse encanto antigo), ou, mais exactamente, funciona hoje como a fórmula dessa desaparição. Através do cheiro, é a própria mudança de um tipo de consumo que eu apreendo: as sandálias (de sola tristemente forrada a borracha) já não são artesanais, o chocolate e o azeite compram-se fora da cidade, num supermercado. Acabaram os cheiros, como se, paradoxalmente, os progressos da poluição urbana expulsassem os perfumes domésticos, como se a «pureza» fosse uma forma pérfida da poluição.
Outra introdução: conheci, na minha infância, muitas famílias da burguesia de Bayonne (Bayonne, nessa época, tinha algo de balzaquiano); conheci os seus hábitos, os seus ritos, as suas conversas, o seu modo de vida. Essa burguesia liberal era cheia de preconceitos, e não de capital; havia uma espécie de distorção entre a ideologia dessa classe (francamente reaccionária) e o seu estatuto económico (por vezes trágico). Esta distorção, nunca a reteve a análise sociológica ou política, que funciona como um passador largo e deixa fugir as «subtilezas» da dialéctica social. Ora essas subtilezas — ou esses paradoxos da História — mesmo não sabendo formulá-los, sentia-os: já «lia» o Sudoeste, percorria o texto que vai da luz de uma paisagem, do peso de um dia enlanguescido sob o vento de Espanha, a todo o tipo de discurso, social e provincial. Porque «ler» um país é antes de mais nada descobri-lo através do corpo e da memória, segundo a memória do corpo. Penso que é a esse vestíbulo do saber e da análise que está destinado o escritor: mais consciente dos próprios interstícios da competência. É por isso que a infância é a via real para através dela conhecermos um país da melhor maneira. No fundo, só há País se for o da infância.
1977, L’Humanité
incidentes
trad. tereza coelho e alexandre melo
quetzal
1987
29 de março de 2006
os livros / c. s. lewis
UM
Nunca ninguém me tinha dito que a dor se assemelhava tanto ao medo. Não que esteja assustado, mas a sensação é a de estar assustado. A mesma ânsia no estômago, o mesmo desassossego, os bocejos. Não paro de engolir em seco.
Noutras alturas é mais como estar ligeiramente ébrio ou ter sofrido uma pancada na cabeça. Há uma espécie de pano invisível entre mim e o mundo. Sinto dificuldade em compreender o que me dizem. Ou talvez dificuldade em desejar compreender.
É tudo tão desinteressante. E no entanto, quero ter pessoas à minha volta. Temo os momentos em que a casa fica vazia. Se ao menos falassem uns com os outros e não comigo.
Há momentos em que, ah!, tão inesperadamente!, algo dentro de mim tenta convencer-me de que, afinal, não sinto assim tanto, não tanto como isso. O amor não é tudo na vida de um homem. Eu era feliz antes de ter conhecido H. Sou uma dessas pessoas que têm muito “a que se agarrar”. Estas coisas acabam por passar. Vá lá, não pode ser assim tão mau. Envergonha-nos darmos ouvidos a esta voz mas, por um momento, parece estar a sair-se bem. E depois é a súbita punhalada do ferro em brasa da memória e todo esse “bom senso” se desfaz em nada como uma formiga na boca de um forno.
No ressalto passamos às lágrimas e ao patético. O sentimentalismo das lágrimas. Quase lhes prefiro os momentos de agonia. Pelo menos esses são límpidos e honestos. Mas o banho de autocorniseração, esse lamaçal, o repugnante prazer, pegajoso e adocicado, de lhe ceder — desgosta—me. E, mesmo quando a ele me abandono, sei que só pode levar-me a deturpar a imagem da própria H. Dê eu mão livre a essa disposição e em poucos minutos terei trocado a mulher real por uma mera boneca sobre a qual choramingar. Graças a Deus, a memória que dela tenho é ainda demasiado forte (mas será sempre demasiado forte?) para me permitir chegar a tal ponto.
Porque H. não era nada assim. O seu espírito era flexível, rápido e enérgico como um leopardo. Paixão, ternura ou dor, nada conseguia desarmá-lo Farejasse ele a mínima baforada de hipocrisia ou pieguice, logo saltava e nos deitava por terra sem nos dar tempo sequer a perceber o que tinha acontecido. Quantas das minhas bolhas de autocomiseração não fez ela rebentar?! Bem depressa aprendi a deixar-me de baboseiras ao falar com ela, a não ser pelo puro prazer — e aí volta a punhalada do ferro em brasa — de a ver apanhar-me em falta e rir-se de mim, Nunca fui tão pouco tolo como enquanto apaixonado de H.
E também nunca ninguém me falou da indolência da dor. Excepto no meu trabalho, onde o mecanismo parece continuar a mover-se praticamente como de costume, abomino o mínimo esforço. Não apenas escrever mas até ler uma carta já é demais. Até barbear-me. Que importa agora se o meu queixo está áspero ou macio? Diz-se que o homem infeliz quer distracções, algo que o faça esquecer-se de si próprio. Talvez, mas só na medida em que um homem, completamente derreado, poderá precisar de mais um cobertor numa noite gelada. Vai preferir ficar para ali a tiritar que levantar-se para o ir buscar. É fácil entender por que motivo os solitários se tornam desleixados e, finalmente, sujos e nojentos.
(...)
dor
trad. carlos grifo babo
grifo
1999
22 de março de 2006
os livros / oscar wilde
Prefácio
O artista é o criador de coisas belas.
Revelar a arte e ocultar o artista é o objectivo da arte.
O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas.
A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia.
Aqueles que encontram feias significações nas coisas belas são corruptos sem serem encantadores. É um defeito.
Aqueles que encontram belas significações nas coisas belas são cultos. Para esses há esperança. São os eleitos aqueles para quem as coisas belas apenas significam Beleza.
Não há livros morais nem imorais. Os livros são bem ou mal escritos. Nada mais.
A antipatia do século XIX pelo Realismo é a raiva de Caliban ao ver a sua cara no espelho.
A antipatia do século XIX pelo Romantismo é a raiva de Caliban por não ver a sua cara no espelho.
A vida moral do homem faz parte do assunto do artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito dum meio imperfeito. Nenhum artista deseja provar o que quer que seja. Até as coisas verdadeiras se podem provar.
Nenhum artista tem simpatias éticas. Uma simpatia ética num artista é um imperdoável maneirismo de estilo.
O artista nunca é mórbido. O artista pode exprimir tudo.
O pensamento e a linguagem são para o artista instrumento de arte.
O vício e a virtude são para o artista materiais de arte.
Sob o ponto de vista da forma, o tipo de todas as artes é a arte do músico. Sob o ponto de vista do sentimento, o tipo é a profissão de actor.
Toda a arte é ao mesmo tempo superfície e símbolo.
Aqueles que descem além da superfície fazem-no por seu próprio risco.
O mesmo sucede àqueles que lêem o símbolo.
É o espectador, e não a vida, que a arte realmente reflecte.
A diversidade de opiniões sobre uma obra de arte mostra que a obra é nova, complexa e vital.
Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.
Pode-se perdoar a um homem o fazer uma coisa útil, enquanto ele a não admira. A única desculpa que merece quem faz uma coisa inútil é admirá-la intensamente.
Toda a arte é absolutamente inútil.
o retrato de dorian gray
trad. de januário leite
círculo de leitores
1972
13 de março de 2006
os livros / ortega y gasset
A POESIA DE ANNA DE NOAILLES
Falemos um pouco da mais poética das condessas e da mais condessa das poetisas. Anna de Noailles é hoje a maior tecedeira do lirismo francês. Com um fogo exemplar, laboriosa, constante, tece cada lustro os versos de um livro que se parece sempre com os anteriores - tão belo, tão ardente, tão voluptuoso. Dir-se-ia que o livro precedente se desfez e foi necessário voltar a tecê-lo. Anna de Noailles é, literariamente, Penélope.
O último volume chama-se As forças eternas. Estas forças eternas são, antes de mais, o amor e a morte. Não se creia, no entanto, que a condessa esperou até agora para cantar estes poderes essenciais. A sua obra gravitou sempre em torno deles, oscilando deleitosamente entre um e outro.
São quatrocentas páginas de poesia minuciosa. Chega até nós um livro repleto de flores, de astros, de abelhas, de nuvens, andorinhas e gazelas. Cada poeta tem um reportório de objectos que são os seus utensílios profissionais. Tal corno o deita-gatos transumante viaja com o seu berbequim e os seus grampos, a condessa precisa de se deslocar com toda essa bagagem para poder realizar as suas preciosas fantasmagorias. Sobre coisas tão bonitas não é possível dizer coisas mais bonitas:
L’aheille aux bonds chantants, vigoureusernent molie,
parece nos seus voos perseguir-se a si mesma.
A andorinha passa com os seus gritos de pássaro que alguém assassina:
Je connais bien ce cri brisant de l’hirondelle
Comme une flèche oblique ancrée au coeur du soir.
Os campanários são doces colmeias de abelhas argentinas.
As rãs são cigarras das águas.
A chuva é um sol que brinca com raios de metal.
Na viagem,
Tes rêveuses prunelles
Contemplaient l´orizon, flagellé et chassé
Par Ie vent, qui, cherchant ton visage oppressé
Faisait bondir sur toi ses fluids gazelles.
A pequena sineta que anuncia o jantar dá saltos de cabrita louca atada à sua corda.
Na noite límpida, os astros são fragmentos do dia.
Há nos versos de Anna de Noailles, tal como na sua prosa, uma excessiva e monótona preocupação com o amor. O amor é tudo; diz várias vezes neste volume:
Amour, tâche pure e certaine,
Acte joyeux et sans remord;
Le seul combat contre la mort,
La seule arme proche et lointaine
Dont dispose, en sa pauvreté,
L’êlre hanté d’éternité.
Este erotismo tão exclusivista cansa um pouco o leitor que não possua uma disposição tão continuada para o delíquio apaixonado. Ao percorrer estas páginas, pensamos mais de uma vez que se trata de uma curiosa ilusão de óptica padecida por este poeta. Não é que o amor seja, em verdade, tudo, mas a eloquência poética só brota em Anna de Noailles de estados de espírito voluptuosos.
Plus je vis, oh mon Dieu, moins je peux exprimer
La force de mon coeur; l´infinité d´aimer,
Ce languissant ou bien ce bondissant orage.
Je suis comme l‘étable où entrent les rois mages
Tenant entre leurs mains leurs cadeaux parfumés.
Je suis cette humble porte ouverte sur le monde;
La nuit, l´air, les parfums et l´étoile m´inondent.
Esta perpétua cantilena voluptuosa flui como um rio denso pelo leito do verso. Não é, pois, propriamente amor; é simplesmente voluptuosidade. As suas metáforas são quase sempre do mesmo tipo; em quase todas se alude ao estremecimento erótico e repercute o espasmo. A alma que nesta poesia se expressa não é espiritual; é, pelo contrário, a alma de um corpo que se diria vegetal.
Se tentarmos imaginar a alma de uma planta, não lhe poderemos atribuir ideias nem sentimentos: não haverá nela mais do que sensações, e mesmo estas, vagas, difusas, atmosféricas. A planta sentir-se-á bem sob um céu benigno, sob a mão branda de um vento suave; sentir-se-á mal debaixo de um temporal, açoitada pela neve inverniça. A voluptuosidade feminina é, talvez, de todas as impressões humanas, a que nos parece mais próxima da existência botânica.
Anna de Noailles sente o universo como uma magnólia, uma rosa ou um jasmim. Daí a sua prodigiosa sensibilidade para as mudanças atmosféricas, climas, estações. Não obstante a sua insistência amorosa, é revelador que o homem não apareça nunca desenhado no fundo aéreo desta poesia. Em contrapartida, intervêm os seres anónimos e difusos: o vento, a humanidade, o azul, o silêncio.
Le flot léger de l´air vient par ondes dansantes...
Não caberá esta ideia perfeitamente no coração de uma papoila?
(…)
Ortega y Gasset
Estudos Sobre o Amor
Relógio d´Água
2002
7 de março de 2006
os livros / conde de lautréamont
Durante toda a minha vida vi os homens, de ombros estreitos, fazerem, sem uma única excepção, actos estúpidos e numerosos, embrutecerem os seus semelhantes e perverterem as almas por todos os meios. Aos motivos das suas acções chamam glória. Ao ver estes espectáculos, quis rir como os outros; mas isso, estranha imitação, era impossível. Peguei num canivete, cuja lâmina tinha um afiado gume, e rasguei a carne nos sítios onde os lábios se reúnem. Por um momento julguei ter atingido o objectivo. Contemplei num espelho esta boca ferida por minha própria vontade! Era um erro! O sangue que abundantemente corria dos dois ferimentos não deixava aliás distinguir bem se era realmente aquele o riso dos outros. Mas, após alguns instantes de comparação, vi claramente que o meu riso não se assemelhava ao dos humanos, que eu não ria. Vi os homens, de cabeça feia e terríveis olhos enterrados na órbita escura, ultrapassarem a dureza do rochedo, a rigidez do aço fundido, a crueldade do tubarão, a insolência da juventude, a fúria insane dos criminosos, as traições do hipócrita, os comediantes mais extraordinários, a força de carácter dos padres, e os seres mais escondidos por fora, os mais frios dos mundos e do céu; vi-os cansar os moralistas para descobrirem o seu coração e fazerem recair do alto sobre eles a cólera implacável. Vi-os todos ao mesmo tempo: ora, com o mais robusto punho erguido para o céu, como o de uma criança, já perversa, contra a mãe, provavelmente incitados por algum espírito do inferno, com os olhos carregados de um remorso agudo mas cheio de ódio, num silêncio glacial, sem ousarem emitir as meditações vastas e ingratas que abrigavam no peito, tão plenas de injustiça e de horror elas eram, e entristecerem de compaixão o Deus de misericórdia; ora, em cada momento do dia, desde o começo da infância até ao fim da velhice, espalhando inacreditáveis anátemas sem senso comum contra tudo o que respira, contra si próprios e contra a Providência, prostituírem as mulheres e as crianças e desonrarem assim as partes do corpo consagradas ao pudor. Então, os mares erguem as suas águas, engolem as tábuas nos seus abismos; os furacões e os tremores de terra derrubam as casas; a peste e as diversas doenças dizimam as famílias em oração. Mas os homens não dão por isso. Também os vi a corarem e empalidecerem de vergonha pelo seu comportamento sobre a terra; raramente. Tempestades, irmãs dos furacões; firmamento azulado, cuja beleza não admito; mar hipócrita, imagem do meu coração; terra, de misterioso seio; habitantes das esferas; universo inteiro; Deus, que com magnificência o criaste, é a ti que eu invoco: mostra-me um homem que seja bom!... Mas que a tua graça multiplique por dez as minhas forças naturais; pois, perante o espectáculo desse monstro, posso morrer de espanto; morre-se por menos.
Fenda
1988
Trad. Pedro Tamen
23 de fevereiro de 2006
os livros / yukio mishima
(…)
No autocarro em que ia para a escola, encontrava muitas vezes uma jovem mulher anémica. O seu ar frio despertava-me a curiosidade. Passava a viagem toda a olhar pela janela com um ar distante, como se estivesse farta de tudo, e nesta atitude era visível a expressão obstinada do seu ligeiro rictus. Quando não aparecia, eu tinha a impressão de que faltava qualquer coisa e, antes mesmo de tomar consciência disso, dei por mim a desejar ardentemente vê-la, de cada vez que apanhava o autocarro.
Perguntava-me então se era a isso que se podia chamar amor. Não sabia, pura e simplesmente. Não tinha a mínima ideia de que podia haver uma relação entre o amor e o desejo sexual. É desnecessário dizer que, na altura em que estivera apaixonado por Omi, jamais fizera qualquer esforço para aplicar a palavra «amor» ao fascínio diabólico que ele exercia sobre mim. E agora, de novo, ao mesmo tempo que me perguntava se a vaga emoção que sentia pela rapariga do autocarro poderia ser amor, sentia-me atraído pelo condutor do veículo, um rapaz vulgar de cabeleira untada com brilhantina.
A minha ignorância era tão profunda que não era capaz de detectar esta contradição. Não via que, na minha maneira de contemplar o perfil do jovem motorista, havia algo de inevitável, de asfixiante, de penoso, de opressivo, ao passo que era com um olhar estudado, artificial, fati- gado, que eu observava a rapariga anémica. Enquanto me mantive na inconsciência da diferença entre estes dois pontos de vista, eles coexistiram em mim sem se importunarem, sem conflito.
Para um rapaz da minha idade, parece singular a minha falta de interesse por aquilo a que se chama «sanidade moral», ou, por outras palavras, a minha incapacidade em assegurar o «auto-controlo». Embora pudesse explicar este facto dizendo que a minha curiosidade, embora intensa, não me predispunha a interessar-me pelos princípios morais, mesmo assim ficaria sem justificação o facto de esta curiosidade se assemelhar aos desejos de um doente que do seu leito aspira a reencontrar o mundo exterior, e de ela se encontrar indissoluvelmente ligada à fé na possibilidade do impossível. Esta combinação — por um lado uma fé inconsciente, por outro um desespero inconsciente — excitava de tal forma os meus desejos que estes assumiam o aspecto de ambições desesperadas.
Embora ainda jovem, eu não sabia o que era experimentar o amor platónico. Seria isto uma infelicidade? Mas que sentido podia ter para mim a infelicidade vulgar? A vaga inquietação que rodeava os meus desejos sexuais tinha praticamente transformado o mundo carnal numa espécie de obsessão. Na realidade, a minha curiosidade era meramente intelectual, muito próxima da vontade de conhecer, mas não me foi difícil convencer-me de que se tratava da própria incarnação do desejo carnal. Mais do que isso, adquiri uma tal destreza na arte da ilusão que acabei por me considerar como um ser dotado de um espírito verdadeiramente depravado. E, como resultado disso, assumi o comportamento afectado de um adulto, de um homem que conhece a vida. Era como se estivesse farto de mulheres.
Foi assim que comecei por ficar obcecado pela ideia do beijo. De facto, o acto chamado beijo representava apenas o lugar onde o meu ardor poderia buscar abrigo. Hoje, posso dizê-lo. Mas nessa época, para me enganar a mim próprio, para manter a ficção de que este desejo era uma paixão animal, tive que assumir um minucioso disfarce do meu verdadeiro eu. O sentimento inconsciente de culpabilidade resultante deste disfarce obrigava-me a representar um papel consciente e mentiroso.
Mas, dir-se-á, é possível ser-se de tal forma infiel à sua própria natureza? Por um momento que seja? Se a resposta for não, como explicar então o misterioso processo mental que nos faz desejar ardentemente coisas de que não precisamos para nada? Se se admitir que eu era exactamente o oposto do homem moral que reprime os seus desejos imorais, quererá isto dizer que o meu coração alimentava os mais imorais desejos? Seja como for, é ou não verdade que os meus desejos eram extremamente mesquinhos? Ou ter-me-ia eu enganado completamente a mim próprio? Não estaria a actuar, nos mínimos pormenores, como um escravo das convenções? Ia chegar o momento em que não poderia adiar por mais tempo a necessidade de encontrar respostas para estas perguntas...
Com o início da guerra, uma vaga de estoicismo hipócrita abateu-se sobre o país. Mesmo as escolas superiores não escaparam a ela; durante os estudos secundários, tínhamos aguardado com impaciência o dia em que, admitidos no ensino superior, poderíamos deixar crescer o cabelo, mas, quando esse dia chegou, não nos autorizaram a satisfazer essa ambição — tivemos que continuar a usar os cabelos cortados à escovinha. O desejo de calçar meias coloridas pertencia igualmente ao passado. Em vez disso, os períodos de instrução militar tornaram-se ridiculamente frequentes e foram instituídas diversas outras inovações absurdas.
No entanto, acostumados como estávamos há tanto tempo a exibir uma aparência de conformismo bastante convincente, embora puramente exterior, pudemos prosseguir a nossa vida escolar sem sermos particularmente atingidos pelas novas restrições, O coronel destacado para junto da escola pelo Ministério do Exército era um homem compreensivo, e mesmo o oficial subalterno, a quem tínha mos posto a alcunha de senhor Zu, por causa da sua forma provinciana de dizer «zu» em vez de «su», bem como os seus colegas, o senhor Pateta e o senhor Trombudo, este assim chamado por causa do seu nariz esborrachado, compreenderam a mentalidade reinante na nossa escola e adaptaram-se a ela de forma assaz inteligente. O director era um velho almirante efeminado e, graças ao apoio do Ministério da Casa Imperial, conseguiu manter o seu lugar adoptando em todas as circunstâncias um espírito de moderação distanciado e inofensivo.
Foi nesta época que aprendi a fumar e a beber. Quero dizer que aprendi a fingir que sabia fumar e beber. A guerra suscitara em nós uma maturidade estranhamente sentimental. Esse sentimento vinha-nos da sensação de que a vida podia terminar aos vinte anos; e nem sequer admitíamos que pudesse haver qualquer coisa para lá destes poucos anos que nos restavam. A vida parecia-nos uma coisa extremamente volátil. Exactamente como se fosse um lago salgado de que a maior parte da água se tivesse evaporado quase de repente, deixando uma tão densa concentração de sal que os nossos corpos flutuavam suave mente à superfície. Já que o momento em que o pano ia cair não estava muito distante, seria natural que eu representasse com ainda maior diligência a comédia que concebera para mim próprio. Porém, embora continuasse a pensar que amanhã é que era, o início da minha viagem pela vida era adiado dia após dia, e os anos de guerra iam passando sem que houvesse o mínimo sinal de que estivesse disposto a meter-me ao caminho.
No fim de contas, não terá sido este um momento excepcional de felicidade? Se nesse momento sentia ainda qualquer espécie de constrangimento, pode dizer-se que o seu impacto era reduzido; conservando sempre a esperança, todas as manhãs eu perscrutava com impaciência o céu azul do desconhecido. Os sonhos fantásticos da viagem que ia empreender, as visões dessa aventura, a imagem mental desse alguém que eu viria um dia a ser e da adorável noiva que ainda nem conhecia, o meu desejo de reconhecimento público nessa época tudo isso estava cuidadosamente arrumado numa mala de viagem, pronto para o dia da partida, exactamente como o guia, a toalha, a escova de dentes e o dentífrico de um viajante. Era com um prazer infantil que eu vivia esse tempo de guerra, e apesar de a morte e a destruição se erguerem à minha volta, era como se nada pudesse vir perturbar essa ilusão na qual me parecia estar fora do alcance das balas. Era mesmo com um estranho prazer que pensava na minha própria morte. Tinha a impressão de que possuía o mundo inteiro. Não há nada de surpreendente nisto, já que é durante o período em que se prepara uma viagem que se usufrui do prazer de viajar, nos seus mais ínfimos pormenores. Depois, fica-nos apenas a própria viagem, que é tão-só o processo através do qual a vamos perdendo. É isso que torna as viagens totalmente inúteis.
Com o tempo, a obsessão do beijo fixou-se nuns únicos lábios. Mesmo quando isso aconteceu, foi porque crescera em mim o desejo de atribuir uma origem mais nobre às minhas fantasias. Como já sugeri, embora não sentisse nem desejo, nem qualquer outro tipo de emoção em relação a estes lábios, tentei desesperadamente convencer-me de que os desejava. Em suma, eu tomava como desejo essencial aquilo que não era mais do que o desejo irracional e secundário de acreditar a todo o custo que os desejava. Tomava o desejo obstinado, impossível, de não ser eu próprio, pelo desejo sexual que sente um homem feito, o desejo que nasce da sua própria condição de homem.
Por esta altura, havia um amigo meu com o qual eu tinha uma certa intimidade, embora entre nós não existissem afinidades, nem sequer nos assuntos de conversa. Era um dos meus condiscípulos, um rapaz chamado Nukada. Aparentemente, ele tinha-me escolhido porque eu era um companheiro agradável, com quem se sentia à vontade quando me fazia perguntas sobre as aulas de alemão do primeiro ano, que lhe causavam as maiores dificuldades. Como é costume entusiasmar-me com as coisas novas, pelo menos até ao momento em que perdem a novidade, eu prometia ser um excelente aluno de alemão — ma foi só durante o primeiro ano. Nukada deve ter tido a intuição de que eu detestava secretamente ser considerado «certinho», e que, pelo contrário, aspirava a ter uma «má reputação». Certinho era uma etiqueta que me parecia colar melhor a um licenciado em teologia, e apesar disso, nenhuma me podia servir melhor de camuflagem. Havia, na amizade de Nukada, qualquer coisa que me tocava no ponto fraco — porque essa amizade fazia ciúmes aos «duros» da escola, e, além disso, por seu intermédio eu podia ir recolhendo alguns ténues ecos do mundo feminino, exactamente como quem comunica com o mundo dos espíritos através de um médium.
Omi tinha sido o primeiro médium entre mim e o mundo feminino. Mas nessa altura eu estava muito mais próximo do meu verdadeiro eu, e por isso limitei-me a considerar os seus talentos particulares de médium como um simples atributo da sua beleza. O papel de Nukada enquanto médium tornou-se, no entanto, a trave-mestra natural da minha curiosidade. Isso devia-se provavelmente, pelo menos em parte, ao facto de que Nukada não era nada bonito.
Os lábios que se me tinham tornado uma obsessão eram os da irmã mais velha de Nukada, que eu via quando ia a casa dele. O mais natural era que esta belíssima rapariga de vinte e três anos me tratasse como uma criança. Ao ver os homens que a rodeavam não me foi difícil compreender que eu não tinha uma única das características susceptíveis de atrair uma mulher. Assim, acabei por admitir que jamais poderia vir a ser como Omi, e, depois de madura reflexão, concluí mesmo que o meu desejo de lhe ser semelhante fora apenas uma expressão do meu amor por ele.
Apesar disso, eu continuava convencido de que estava apaixonado pela irmã de Nukada. Exactamente como teria feito qualquer inexperiente estudante da minha idade, vagueava em torno da sua casa, gastando pacientemente horas e horas numa livraria próxima, na esperança de me dirigir a ela quando passasse; apertava uma almofada contra o coração e imaginava o que sentiria quando a tomasse nos meus braços, desenhava incontáveis imagens dos seus lábios e falava sozinho como se tivesse perdido o juízo. E tudo isto para quê? Estes esforços artificiais apenas serviam para me encher o espírito de um enorme cansaço, uma espécie de moleza. O que havia de realista em mim sentia o carácter artificial dos protestos eternos através dos quais me persuadia de que a amava, e lutava contra esta fadiga perniciosa. Nesta exaustão mental parecia correr um terrível veneno.
No intervalo dos esforços mentais que fazia para poder viver no domínio do artificial, era por vezes esmagado por um vazio paralisante e, para lhe escapar, voltava-me sem vergonha para uma outra espécie de fantasia. Nessas alturas, transbordava de vida, era eu próprio, e excitava-me criando as mais estranhas imagens. Mais do que isso, a chama assim ateada permanecia-me no espírito sob a forma de um sentimento abstracto, separado da realidade da imagem que o provocava, e eu deformava a minha interpretação desse sentimento até ao ponto cm que via nele a prova da paixão que a rapariga me inspirava... Desta forma, uma vez mais, estava a enganar-me a mim próprio.
Se alguém me quiser criticar, sustentando que o que acabo de escrever tem um carácter demasiado genérico, demasiado abstracto, a única coisa que posso responder é que não é minha intenção entregar-me a uma fastidiosa descrição de um período da minha vida, cujos aspectos não se distingam dos de uma adolescência normal. Se exceptuarmos o lado vergonhoso de alguns dos meus pensamentos, a minha adolescência era, mesmo nos seus aspectos íntimos, absolutamente vulgar, e durante este período eu era igual a qualquer outro rapaz. Basta ao leitor imaginar um estudante de bom nível, com quase vinte anos, dotado de uma curiosidade média, de um apetite de viver razoável; de temperamento reservado, sem dúvida pela única razão de que era dado à introspecção, pronto a corar por tudo e por nada, e sem a confiança só possível em quem tem a certeza de que é suficientemente bonito para agradar às raparigas — e agarrado, por necessidade, unicamente aos livros. Bastará imaginar, para que o quadro fique completo, até que ponto este estudante sente a nostalgia das mulheres, com o coração em chamas, e como os tormentos que sofre são inúteis.
Haverá coisa mais prosaica, mais fácil de imaginar? É conveniente omitir os pormenores enfadonhos, que ser viriam apenas para repetir aquilo que toda a gente já sabe. Direi então, apenas, que — à excepção da tal única diferença vergonhosa de que falei — neste período incaracterístico da vida de um estudante tímido, eu era exactamente como os outros rapazes e tinha jurado fidelidade incondicional ao encenador da peça chamada adolescência.
(…)
Assírio & Alvim
1984
trad. António Mega Ferreira