13 de julho de 2007
memória
e vinha a luz
e guardava-te
e eu guardava-te
também
em lugares mais seguros
que fotografias
ou poemas
7 de julho de 2007
luto
atravessava a morte
com a lentidão rigorosa dos amantes
e voltava
voltava sempre
trazia em pedaços de papel
coisas cada vez maiores
que já só podia arrumar no coração
20 de junho de 2007
san giorggio maggiore
é neste muito silêncio que se me repete o tempo
no horizonte impossível
ou no ângulo forte desta sombra sagrada
rebentam sonhos
crepitam anseios de viagem
pela ideia antiga de universo
e de humanidade
estes pássaros
dançam só para mim
estou só
neste céu com que me cobres
e são tão
frescas as melodias da água
que por ti me hei-de um dia
pôr a morrer
(veneza, agosto de 2001)
10 de junho de 2007
no lado maior do que não há
ir
no redondo da vela mais branca
navegar
o silêncio dos clarões
passar
por nenhuma ponte
morrer
no lado maior do que não há
9 de junho de 2007
onde mora o coração
ainda que um último navio
viesse pousar-me nas mãos
toda a solidão
das ilhas
e na brevíssima noite
dos mortos
rompesse límpida
a última nuvem
da saudade
ainda assim
só contigo subiria
toda a neve dos dias
até se esgotar
o vermelho
essa casa
onde mora o coração
2 de junho de 2007
seguíamos a água
seguíamos a água
porque a secura nos cercava
como um animal
quase louco
do alto de pedras antigas
avistávamos cidades
para onde partíamos
a todas as horas
metrópoles
de ventos eufóricos
que nos sopravam
a humanidade inteira
na forma
do grito e do olhar
e no incêndio infinito
do sangue
e eram tão poderosas
as palavras que sabíamos
tão nobres os silêncios
por onde elas espelhavam
e tão grande
era tão grande o coração
que as ouvia,
que as guardava
num secreto
para sempre!
30 de maio de 2007
24 de maio de 2007
14 de maio de 2007
manifesto
todo o olhar será resoluto
e cercará liquidamente todas as formas
todos as coisas
todas os seres
não parará de se cumprir
até ao ínfimo estremecer da cor mais rara
e ignorará sempre
a lei do espaço e do tempo
arrasará de irreal
a superfície dos volumes mais intensos
todas as arestas do mundo
serão extintas
e há-de nascer
uma nova geometria
10 de maio de 2007
nenhuma escada
todos os relógios
estavam do teu lado
eu só tinha a minha torre
de espelhos
só tinha a noite
e o silêncio
e nenhuma escada
5 de maio de 2007
equador
mais tarde
sentiria a dor da terra seca
havia de ouvir o cinzel do tempo
e experimentar o arrepio
da fusão lenta dos espelhos
que estranho fogo nos queima
quando da solidão suprema
se ergue o chão de todas as coisas
e exangues de saudade e medo
aí deixamos o amor
todo o amor
com a violenta ternura
do que é eterno
quanto mais se pode dar
a quem um dia nos cruzou o coração
como um equador
de vida e paixão?
15 de abril de 2007
11 de abril de 2007
3 de abril de 2007
água-forte
3)
eram tão simples
as nossas mãos
ainda tão simples
e prontas
quando
nos procurávamos
como se tudo
nos faltasse
26 de março de 2007
as três comadres
(sobre um quadro da alice loureiro)
no fim dum caminho antigo,
por entre as pedras e o céu,
há vozes que anunciam um outro tempo.
um tempo escondido no segredo das mentes,
como as almas se escondem
nas pedras das cidades que pecaram.
é a maldade simples da terra,
a intriga das ervas,
a sentença do que vive.
não há aqui eternidade,
nem morte,
e só os olhos levam o que lá diz;
em molhos de cor a lembrar cereais maduros,
mel guardado como um tesouro
para um amanhã esperado.
tudo acaba ali,
no precipício que divide o real
e anuncia o infinito com uma força nua de sinais.
e é nesse acabar
que uma outra realidade ganha forma,
tranquila como as coisas eternas,
enigmática como as coisas que, não sendo vivas,
obedecem a um outro sangue,
a um pulsar de que nunca saberemos o nome....
gil t. sousa
4 de março de 2007
água-forte
1)
sou tão invisível, hoje! nenhuma ponte me apanha no abismo de acordar.
24 de janeiro de 2007
falso lugar #050

edward muybridge
todas as noites não saber
em que hora parar
em que degrau de sombra
largar o recado para o nada
que nos queima
as mãos





