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3 de maio de 2006
falso lugar #030
um labirinto de vidro
palavras transparentes
dias quase limpos
no chão
sombras brancas sem raiz
1 de maio de 2006
falso lugar #029
O tempo é uma fortaleza de papel. Todos os passos se resolvem em caminhos esquecidos. Todos os horizontes se erguem como livros guardados. Leio tudo o que me cerca, como se tivesse que esconjurar impressionantes silêncios. Tenho aqui o mundo e aqueles que lhe traçaram a órbita. Tenho aqui as minhas noites e os meus dias, os anos e as estações, as latitudes e as longitudes... Tenho aqui os fundamentais pontos que me marcaram o norte e o sul.
Dou-me esta ilusão de uma manhã lúcida e depois parto pelos dias adentro, interiormente, dissimuladamente como a maré de um sentimento. Tenho na pele a nostalgia de um lugar perdido. Navios, grandes navios adormecidos no seu azul ferido. Dançam-me a sua morte num pensativo silêncio. Exaltam o seu morrer numa coreografia de lágrimas em ferrugem, escondem na imobilidade dramática dos guindastes o diário intacto das viagens cumpridas. Os arranhões no ferro são linhas de mapas impossíveis e no fim dos seus nomes já não brilha a recompensa de um destino.
Ah! os nomes e as intenções que contêm! Um nome é um cruzeiro no nada, uma corrente que nos arrasta ao incerto do paraíso ou do inferno.
26 de abril de 2006
falso lugar #028
das viagens
regresso ao livro
que me declara sábio
que não me abandonem
os ventos
quando de novo navegar
o marítimo corpo
da ausência
é que me abro
à oração dos desertos
e sigo a minúcia dos milagres
até ao deslumbre
do que morre
(que torre é esta
que se atravessa na madrugada
e me serve o oculto canto
da paisagem que te esconde?)
regresso ao livro
que me declara sábio
que não me abandonem
os ventos
quando de novo navegar
o marítimo corpo
da ausência
é que me abro
à oração dos desertos
e sigo a minúcia dos milagres
até ao deslumbre
do que morre
(que torre é esta
que se atravessa na madrugada
e me serve o oculto canto
da paisagem que te esconde?)
21 de abril de 2006
falso lugar #027
era um passo novo
um timbre de rua nova
numa cidade calada
a tua mão na água dormente
a dança do teu olhar
sobre o peso
do tempo sábio
segui-te o sonho
como uma ave
e regressei
ainda mais só
18 de abril de 2006
falso lugar #026
e que não fosse tarde, que nunca fosse tarde nos seres amados, nem nos lugares por onde passámos e, nus, deixámos os olhos como uma nuvem sobre a morte.
9 de abril de 2006
falso lugar #025
é Verão no meu sangue e o corpo é o quadrante dum relógio mágico onde todas as horas são marcadas com sinais de fogo.
nas veias queimadas, só o carinho da Lua – essa velha surda e cega ! – que na sua bondade de fêmea me transforma os pecados em paixão e faz dos meus gritos orações poderosas que os deuses escutam e aceitam.
5 de abril de 2006
falso lugar #024
dentro do tempo, o tempo
o cheiro do mundo
quando me cantas essa rua antiga
já por aqui morri
e vivo
regresso ao beijo seguro
e fiel
4 de abril de 2006
falso lugar #023
a casa
e a casa fecha-se
como uma flor que se gasta
agora
as palavras sobem-na
como raízes
devoradoras
sobre os olhos
entaipados
há esse amor
um vermelho muito alto
tão alto
e a morrer, a morrer
como sangue ao relento
ou livros abandonados
no chão da memória
no desejo
e há um adeus muito triste
um céu antigo
que tudo cobre sem gritar
ternura
é a ternura meu amor
é esta fogueira medonha que se apaga
no coração silencioso
do tempo frio
a casa, amor
o punho fechado do destino
roendo
o que os olhos largaram na rua
o que as mãos pousaram
no coração
para sempre, para sempre, para sempre
e a casa fecha-se
como uma flor que se gasta
agora
as palavras sobem-na
como raízes
devoradoras
sobre os olhos
entaipados
há esse amor
um vermelho muito alto
tão alto
e a morrer, a morrer
como sangue ao relento
ou livros abandonados
no chão da memória
no desejo
e há um adeus muito triste
um céu antigo
que tudo cobre sem gritar
ternura
é a ternura meu amor
é esta fogueira medonha que se apaga
no coração silencioso
do tempo frio
a casa, amor
o punho fechado do destino
roendo
o que os olhos largaram na rua
o que as mãos pousaram
no coração
para sempre, para sempre, para sempre
1 de abril de 2006
30 de março de 2006
falso lugar #021
sobra de todo o silêncio
o raro acorde
do teu nome
a que solidão altíssima
me entregas
quando te deixas morrer assim
no abraço faminto
do tempo?

foto de abbas kiarostami
26 de março de 2006
falso lugar #020
é como acordar.
mas aquilo que flúi quando acordas,
aquilo que te liga os dias donde vens
aos dias a que queres chegar,
aquela abundância de razão e de consciência
que te dá sentido à vida...
esse movimento está ausente
e sentes-te como um fumo.
qualquer coisa te pode esmagar,
qualquer gesto te pode transportar
a um chão que não existe,
a um caminho
que os teus passos não sabem percorrer.
e as tuas mãos ficam húmidas desse delírio.
e os olhos caem-te aflitos no lugar da doçura ausente.
e ficas sem gritar,
ergues-te sobre esse dia que chega
e tudo é maior do que possas ter para te agarrar.
e deixas-te ir, etéreo como um fumo…
podia ser esse o minuto da loucura.
podia ser esse o momento de abraçar a luz
e estalar docemente numa noite qualquer.
como uma fenda de fogo,
como um punhal de lume
que enfim te rasgasse o mundo.
mas aquilo que flúi quando acordas,
aquilo que te liga os dias donde vens
aos dias a que queres chegar,
aquela abundância de razão e de consciência
que te dá sentido à vida...
esse movimento está ausente
e sentes-te como um fumo.
qualquer coisa te pode esmagar,
qualquer gesto te pode transportar
a um chão que não existe,
a um caminho
que os teus passos não sabem percorrer.
e as tuas mãos ficam húmidas desse delírio.
e os olhos caem-te aflitos no lugar da doçura ausente.
e ficas sem gritar,
ergues-te sobre esse dia que chega
e tudo é maior do que possas ter para te agarrar.
e deixas-te ir, etéreo como um fumo…
podia ser esse o minuto da loucura.
podia ser esse o momento de abraçar a luz
e estalar docemente numa noite qualquer.
como uma fenda de fogo,
como um punhal de lume
que enfim te rasgasse o mundo.
23 de março de 2006
falso lugar #019
passados
não te esqueças de me visitar. traz-me as fotografias de Veneza e aquele poema que me escreveste quando o nosso amor ainda era o que de mais magnífico acontecera nas nossas vidas e no mundo.
havemos de nos sentar nas mesmas cadeiras como se fossem as mesmas manhãs de sábado. havemos de olhar os mesmos telhados, divagar sobre a eternidade dos gestos e jurar comovidamente que as nossas almas se tocaram de uma maneira única e inesquecível.
eu hei-de esconder-te a minha interminável solidão e tu hás-de demonstrar-me, muito inocentemente, nas tuas palavras tão cheias de vida e de juventude, como a morte nos descobre mesmo nos lugares mais altos.
22 de março de 2006
20 de março de 2006
falso lugar #017

Sandro Botticelli, Birth of Venus (detail)
hoje,
o sopro dos anjos,
onde já nem
a sombra
chegava
19 de março de 2006
15 de março de 2006
falso lugar #015
tarde antiga
oratórias de Bach
e uma fileira de árvores nuas
o vento é um calendário antigo
arrumado na gaveta mais funda
as jarras, os cinzeiros,
todos os vidros com
aquela pose de diamante
que durante tanto tempo
me encheram os olhos
numa caixa sobre a mesa
estão amarradas as últimas palavras
escritas em papel surdo
numa caligrafia mortal
14 de março de 2006
falso lugar #014
automatic winter
quem se importa se não vens pela estrada, ou se o teu nome é muito longe como a sombra? hoje abri as mãos enquanto o sul me fugia em pássaros sob a lua. há árvores tão lentas neste Inverno e passos mudos, água nos caminhos do espelho.
e tu não estás, não estás lentamente, nem sobre os telhados vermelhos, nem ao longe como o forte querer que a neve caia e tudo apague como se apagava o mundo quando docemente um beijo nos explodia no meio da solidão.
12 de março de 2006
falso lugar #013
nunca sobrava uma sílaba. ternamente poderosos, revíamos o mundo do mais alto lugar.
nas manhãs frias de sábado,
a noite ainda na pele.
11 de março de 2006
falso lugar #012

nada te levará tão longe, como os dias cegos de outrora. janelas que se perdiam na bruma, olhos que pousavam no impossível do tempo, movimento perpétuo dos lábios com marés de palavras esculpidas no coração.
foi tudo nesse horizonte afogado. a mesa vazia, o piano calado, o pássaro imóvel. virás por muitos anos, como a espuma dos sonhos perdidos. e a raiva será cantada no paredão da memória até ficarem macias as pedras do caminho.
e será esse o teu Inverno.
9 de março de 2006
falso lugar #011
na curva do rio é que tudo nos espera, é que tudo morre. levam-nos na corrente invisível do tempo, levam-nos no silêncio para nunca mais chegarmos.
ninguém nos há-de esperar no fim da viagem. nunca mais nos havemos de libertar da solidão dos retratos.
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